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Parque Capibaribe recebe reforço do Banco Europeu de Investimentos

 Lenne Ferreira

Em um futuro que já vem sendo construído pelo projeto Parque Capibaribe, a população recifense e as águas do rio vão estar mais conectadas. O projeto, que começou a ser implantado em 2017 com a inauguração do Jardim do Baobá, desenvolve um sistema de parques integrados a partir do Rio Capibaribe e acaba de conquistar reconhecimento internacional numa seleção mundial promovida pelo Banco Europeu de Investimentos (BEI). A instituição escolheu cinco ações sustentáveis, entre elas o Parque Capibaribe,  para receber um investimento de 300 mil euros, o equivalente a R$ 1,37 milhão. O recurso deve subsidiar novos itens do projeto. O Parque foi escolhido entre mais de 140 trabalhos do mundo para receber o aporte financeiro que integra o programa Desafio das Cidades para o Clima Global (GCCC) da ONU.

Apresentado pelo prefeito do Recife, Geraldo Júlio, na Conferência da ONU sobre o Clima (COP 25), que aconteceu em Madri, o Parque Capibaribe se destacou por ser considerado uma iniciativa fundamental no enfrentamento aos efeitos das mudanças climáticas. O Recife é a 16ª cidade do ranking mundial de vulnerabilidade aos efeitos das mudanças climáticas segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Apesar de ser um fenômeno de caráter global, em cálculo estimativo do ano de 2012, a cidade emitiu 3,2 milhões de toneladas de carbono, contribuindo assim para o desequilíbrio ambiental. O prefeito defendeu a expansão do parque urbano como um modelo que impacta na mobilidade e na qualidade de vida da população.

O projeto foi escolhido entre mais de 140 projetos. Imagem: Acervo INCITI/UFPE

Secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, Guila Calheiros, comemora a premiação que representa a união de esforços em prol de uma cidade mais sustentável. “Esse reconhecimento foi fundamental pra gente porque mostra o resultado de um trabalho de longo tempo, que foi construído em parceria com o INCITI/UFPE. O Parque Capibaribe não é só um projeto de recuperação das margens do rio, é um projeto sobre reencontro da cidade com o mesmo. Não se concentra apenas em obras, mas em entender o rio, os principais desafios, como retomar a conexão entre suas águas e a cidade por meio da ativação das suas margens”, comenta. Para ele, esse resgate do encontro cidade-rio possibilita a geração de novos espaços para as “pessoas se encontrarem, se verem e se conectarem com a cidade”. O aporte financeiro chega em boa hora. “Estamos na reta final de entrega do Parque Capibaribe. Esse financiamento vai ser fundamental para a realização do projeto de engenharia para a etapa de conclusão”.

As iniciativas escolhidas pelo Desafio das Cidades para o Clima Global (GCCC) estão focadas em projetos que visam a melhoria da gestão de resíduos, a redução da poluição dos rios e dos oceanos, o fomento a um transporte urbano sustentável, esverdeamento de espaços urbanos e o aumento da resiliência urbana aos efeitos das mudanças climáticas. O GCCC faz parte de uma abordagem estratégica geral para ajudar as cidades a viabilizar projetos de ação climática. De acordo com Guila Calheiros, será aberta uma licitação pública para selecionar a empresa de engenharia que vai ficar à frente do desenvolvimento dos projetos financiados pelo recurso do BEI.

O aporte financeiro é de R$ 1,37 milhão. Imagem: Acervo INCITI/UFPE

Circe Monteiro é uma das responsáveis por tornar o projeto Parque Capibaribe uma realidade. Coordenadora de pesquisa e urbanismo da INCITI/UFPE, ela também atua como professora titular do Departamento de Arquitetura da mesma universidade e é uma das que enxerga as reais mudanças que a conexão da população com o Capibaribe pode gerar na cidade. “O Parque Capibaribe é uma concepção bastante sólida de combate aos efeitos climáticos porque apresenta um conjunto de ações. Não é só um projeto que propõe a recuperação da vegetação tropical em volta do rio. Também propõe e dá condições ao desenvolvimento de um processo de  mobilidade ativa com um sistema de ciclovias que vai oferecer uma nova experiência de andar de bicicleta na cidade, em um lugar seguro à beira do rio. Considera ainda soluções inovadoras de drenagem, tratamento de água, a criação de superfícies mais porosas que diminuam a temperatura da cidade”, cita.

Para Circe, entre outros fatores que garantiram uma boa avaliação do Parque Capibaribe na COP 25 estão, principalmente, as redes e intervenções articuladas. “Quando um banco internacional faz uma seleção como essa, ele está em busca de projetos que sirvam de inspiração para outras regiões tanto do Brasil, como do mundo. O Parque Capibaribe propõe intervenções para enfrentar efeitos climáticos no meio urbano focado na regeneração ambiental, ao mesmo tempo que promove amplo sistema de caminhabilidade e articula espaços públicos para atividades de lazer e sociais voltadas à saúde das crianças, mulheres e idosos. É um projeto que vai incentivar a vitalidade social e econômica das áreas vizinhas ao rio.

Circe acredita que a sustentabilidade passa pela participação social. Foto: Rafa Medeiros

A pesquisadora acredita ainda que existem muitos desafios a serem enfrentados na implantação de um projeto sustentável e regenerativo. “Não se consegue uma intervenção sustentável e inovadora repetindo os processos praticados há décadas. Para um projeto ser um exemplo de sustentabilidade, além de uma concepção ambiental e urbanística inovadora, é necessário também repensar uma cadeia de processos: critérios de licitação de obras, modos de execução, origem e impacto de materiais e vegetações, além de procedimentos de gestão, de transparência. O projeto necessita ser acompanhado de uma ampla visão estratégica sem esquecer que não existe sustentabilidade sem a participação da população e mudança nos hábitos de viver a cidade”, conclui. A implantação deste projeto vai permitir um aprendizado muito rico ”, conclui.

Inovar nos procedimentos é necessário para a execução do projeto. Imagem: Acervo INCITI/UFPE

Vai e vem pelo Rio

Uma das estratégias mais eficazes para frear o aquecimento global é adotar medidas que valorizem a preservação, a criação e a manutenção de espaços verdes nas grandes cidades. Nas áreas urbanas, onde há grande concentração de emissão de gases poluentes, a vegetação arbórea possibilita maior qualidade de vida e diminui os efeitos das mudanças climáticas no planeta. O Parque Capibaribe está fundamentado na valorização das margens do rio por meio da criação de jardins públicos, a exemplo do Jardim Baobá, praças e parques, além da conservação de seu ecossistema garantindo mais sustentabilidade dos seus recursos naturais. “Quando falamos do Parque Capibaribe é importante ressaltar que não estamos nos referindo  a um parque às margens do rio, mas de uma articulação urbana transformadora da qualidade ambiental de grande parte da cidade ” pontua Circe Monteiro.

A Via Parque Graças é outro exemplo de intervenção que o Parque Capibaribe propõe para transformar o Recife em um lugar melhor para se viver. Ela vai ocupar um trecho de 950 metros em torno do Rio Capibaribe, entre as pontes da Torre e Capunga, e deve ser concluída até o final de 2020. Outra iniciativa que vai deixar o Recife mais conectado com o rio foi anunciada por Guila Calheiros. Trata-se do Parque Vila Vintém, projeto na Zona Norte do Recife que está sendo coordenado pela equipe da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Recife, que vai interligar o Parque Santana ao Parque da Jaqueira, ao longo das águas do Capibaribe. “É um projeto que envolve diversas secretarias e vai requalificar algumas áreas,  criar ciclofaixas e ciclorotas”, adiantou o secretário, que garantiu que esse trecho será entregue ainda em 2020.