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Caminhabilidade no Recife: Análise morfológica e perceptiva da qualidade da interface público-privada no bairro das Graças

Dissertação de Sabrina Machry

ANO
2016

INTRODUÇÃO
Como ocorre em diversas grandes cidades brasileiras, o Recife conta hoje com uma infraestrutura urbana que prioriza deslocamentos em automóvel privado. O transporte público coletivo em geral está sujeito à congestão do tráfego motorizado, pois as faixas e corredores exclusivos não atendem todo o itinerário realizado pelos ônibus intramunicipais e a rede metroviária não alcança a maior parte do território. Além disso tanto os veículos coletivos quanto os pontos de espera do sistema (paradas de ônibus e metrô) não oferecem conforto ao usuário. A ausência de ar condicionado nos veículos, a falta de sombreamento nas paradas, as péssimas condições de segurança das calçadas e travessias viárias, entre outros problemas, desqualificam a experiência do deslocamento em transporte público.

Somadas a estas dificuldades, a cidade possui infraestrutura cicloviária pouco eficiente devido à fragmentação das rotas e o baixo alcance no território, além disso, há falta de sinalização apropriada para ciclistas e pedestres. Neste contexto, os deslocamentos pedestres não são incentivados ou sequer respeitados. Grande parte dos trechos de passeio público, quando existem, são estreitos, não recebem manutenção e frequentemente apresentam obstruções, falhas e buracos ao longo do percurso. A cidade enfrenta, assim, uma negação dos espaços públicos, tornando a relação público-privada cada vez mais austera; a relação de invisibilidade e dissociação entre os espaços públicos e privados, agrava a condição pedestre, ampliando a sensação de insegurança nas ruas. Quando a vitalidade urbana existe em um bairro ou rua, geralmente ocorre de forma fragmentada, atingindo um raio limitado.

A exemplo de situações internacionais – conforme será melhor abordado ao longo do trabalho – muitas cidades brasileiras iniciaram processos de transformação no qual a humanização dos espaços públicos é um importante caminho para soluções de problemas urbanos de cunho social, ambiental e econômico. Geralmente os grandes problemas urbanos estão associados a cidades já consolidadas, que apresentam diferentes graus de densificação e expansão territorial, mas a grosso modo uma infraestrutura urbana deficitária.

Assim, a reestruturação urbana pautada nas premissas da humanização das cidades é, para além da identificação de condições espaciais e funcionais ideais, um exercício de como transformar a configuração urbana existente. Surge então a necessidade de estudar como intervir no construído, promovendo a atividade pedestre.

Tendo isso em conta, este trabalho nasce da vontade de orientar a intervenção no espaço construído, mais especificamente a requalificação dos tecidos urbanos consolidados de forma a tornar o espaço público mais convidativo e confortável à atividade pedestre. Para tanto, o
tema central eleito para este estudo é a Caminhabilidade, conceito que tem como foco a atividade e o espaço pedestre. O objetivo é avançar nos conhecimentos sobre métodos de avaliação espacial, com ênfase na análise da interface público-privada na promoção de atratividades para atividade pedestre. Como estudo de caso, o recorte espacial escolhido foi o Bairro das Graças, na cidade do Recife (Pernambuco, Brasil).

Acesse a dissertação na íntegra.

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O espaço do pedestre no Recife

Ensaio de Sabrina Machry

ANO
2016

As cidades estão paralisadas. A crise generalizada da mobilidade urbana incita a reflexão acerca dos modais de transporte: são avaliadas eficiência, com medição de tempos de trajetos, poluição gerada, infraestrutura necessária, custos de implantação e operação e os impactos na saúde dos usuários, (…) a partir da poluição, do stress causado pelo trânsito e pelo aumento do sedentarismo (ANTP, 2015; pág.49).

Chegando a um século do modelo de cidade sob a lógica urbana do transporte motorizado, e apresentando problemas seríssimos de mobilidade, congestão no trânsito e muito tempo gasto nos deslocamentos diários, as políticas públicas sofrem uma inversão: passam a desestimular o uso do veículo motorizado privado e buscar a solução no transporte coletivo. Somam-se ainda novas pautas como o incentivo à infraestrutura cicloviária, espaços públicos de qualidade, ruas para pessoas e atividades pedestres; uma mudança que reflete no desenho urbano das cidades, na legislação vigente, na mentalidade social e na vida dos citadinos.

Esta nova visão interfere diretamente na forma de fazer cidade: nos raios da área urbana, no comprimento dos deslocamentos, na configuração espacial das ruas e calçadas e na variedade do uso e ocupação do solo, de forma a encurtar as distâncias percorridas dentro da cidade. Além disso, determina o nível de percepção e vulnerabilidade do espaço público-privado; pois uma vez que se reduz a velocidade do transeunte, como no caso de deslocamentos não motorizados, aumenta sua capacidade de leitura de detalhes do percurso e ele está mais sujeito à dinâmica da rua, seus riscos e benefícios.

Leia o texto completo.

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Reestruturação do tecido urbano da cidade do Recife por meio da articulação dos espaços públicos

Artigo de Luiz Carvalho Filho, Werther Ferraz de Sá, Carolina Puttini e Circe Monteiro

ANO
2015

RESUMO
Este artigo descreve a metodologia de pesquisa e as intervenções propostas para o desenvolvimento de um parque linear de 30 km ao longo do principal rio da cidade do Recife, em Pernambuco, no Brasil. Este projeto foi encomendado pela Prefeitura do Recife à Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e foi desenvolvido nos últimos dois anos por uma equipe multidisciplinar coordenada pelo INCITI, um grupo focado em pesquisa e inovação para a cidade.

O objetivo do projeto é fornecer um plano estratégico que aborda questões ambientais, espaciais e sociais. No entanto, o projeto extrapola os limites imediatos que estão sob a influência do sistema fluvial, dado que essa mudança na configuração sócio-espacial da cidade é percebida como uma base ou estrutura inicial que irá impulsionar a transformação da cidade.

Portanto, o parque proposto procura elementos que possam promover a reinvenção da cidade, fundamentado principalmente na expansão do potencial e das qualidades dos espaços públicos existentes, das áreas vagas ou subutilizadas ao longo dos cursos de água, com o objetivo de intensificar o uso desses espaços para as pessoas e melhorar sua conexão com a cidade. A maioria das estratégias propostas no projeto baseia-se na estruturação de lugares vitais e sustentáveis ​​e na priorização de modos de transporte públicos não-motorizados.

Um dos principais desafios nesta pesquisa é como reconectar os cidadãos e o rio. Recife é uma cidade com quase 500 anos, na qual a relação entre cidade e rio mudou drasticamente ao longo do tempo. Nos primeiros anos e até certo ponto durante a expansão da cidade, o rio era uma das principais estruturas de transporte e conexão entre os assentamentos iniciais que formaram a cidade. O advento do carro e outros modos de transporte, em paralelo à expansão da cidade para áreas não diretamente relacionadas ao rio, reverte a relação anterior entre cidade-rio.

Espaços ao longo da água não estão mais no centro, mas na periferia da cidade. Essa inversão do papel dos espaços ao longo do rio é evidente na análise do mapa axial do Recife. A estrutura do rio representa uma lacuna na continuidade do tecido da cidade. Essa divisão é ainda mais relevante ao combinar a análise sintática com dados sobre renda, acesso a serviços públicos e espaços públicos. Na configuração atual, o rio separa os grupos sociais, é uma barreira à circulação fluída na cidade, um vazio no tecido urbano. O projeto Parque Capibaribe visa superar esse vazio na estrutura da cidade usando uma rede de espaços públicos, conectada principalmente por caminhos para ciclistas e pedestres.

O principal resultado esperado deste projeto, além de tudo relacionado à melhoria das

condições ambientais, é usar a estrutura espacial de um parque como um alicerce que pode reescalar uma cidade dividida.

PALAVRAS-CHAVE
Espaços públicos, segregação espacial, mobilidade não motorizada, vitalidade urbana.

Leia o artigo completo (em inglês).

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É preciso aprender a falar com estranhos

Por Maíra Brandão

É preciso aprender a falar com estranhos, já diria a minha querida amiga cearense, Fernanda Meireles. O que podemos ganhar trocando palavras com quem não se conhece? Andar a pé pela cidade, a esmo, também tem dessas. E quando a gente está imerso em um cenário pintado de espanto e assombro – pelos fatos reais e situações imaginadas – caminhar pode ser um ato de resistência. Assuma o risco.

Outro dia eu precisava resolver algumas coisas nos arredores da Dantas Barreto (um alô pra quem tem intimidade com o centrão do Recife!) e saí à pé do Bairro do Recife pra lá. É bem pertinho, coisa de 10 minutos. Já era fim de tarde, o trânsito começava a dar seus sinais, amontoando carros e seus condutores sob a Ponte Maurício de Nassau (aquela que conecta a Av. Marquês de Olinda com o vuco-vuco da Guararapes). Eis que no meio da travessia, me deparei com uma cena dessas que se eu não tivesse visto, não teria acreditado: uma garça plainando, voando bem baixinho, rente aos carros.

Embasbacada, puxei pro lugar o queixo que quase se arrastava pelo chão e saquei o celular o mais rápido que pude para tentar filmar aquele momento. Fui atravessando a ponte, no meio dos veículos, procurando o melhor ângulo para fazer uns cliques, quando me dei conta de que aquele vôo tão baixinho, a ponto de alguém esticar o braço e fazer cócegas na ave, não era à toa. Um pescador lançava a rede ao rio Capibaribe e quando a recolhia, já separava algum aperitivo para a garça.

Encostei no guarda corpo e puxei conversa com João que, de cima da ponte, se dedicava a projetar e puxar a rede. Aquele que agora é pescador foi, durante boa parte da vida, caminhoneiro. Por conta de um acidente na estrada, passou a ter complicações na perna direita. Os médicos recomendaram amputar, mas ele não aceitou. Puxa de cá, ajeita de lá, enxerta acolá… ficou João com a sua perna e uma coleção de complicações.

“Eu tinha medo”, me disse. Medo de ficar sem a perna, medo de não saber como sobreviver sem o seu ofício de motorista, medo de ser rejeitado. E fiquei pensando a quantas coisas a gente se apega na vida, por medo: um relacionamento, um emprego, um conceito, um objeto. E como, muitas vezes, sequer nos damos a chance de saber o que vem depois do pânico, da ansiedade, da apreensão. Ao fim e ao cabo, tá tudo dentro da cabeça da gente, e aí, pense num compartimento complexo para se desvelar.

Por 11 anos, João viveu entre idas e vindas ao hospital, adotando procedimentos que aliviassem o sofrimento pelo constante inchaço da perna. Até o dia em que ele cansou. E decidiu se desfazer daquilo que deveria ser ser seu alicerce, mas por mais de uma década lhe dificultou a sustentação. Há seis anos decidiu retomar a atividade aprendida na infância com o pai e pesca nos arredores do Capibaribe, no entorno dos bairros do Recife e de Santo Antônio. E diz que é feliz: “A vida só não tá boa pra quem morre. A vida se acaba. Pra quem tá vivo, tá bom demais”.

Esbanjando saúde, João se diz satisfeito pelas novas conquistas. Do rio, tira o sustento, o alimento e essa amizade improvável. Todos os dias, a garça se chega junto de João para um momento de camaradagem em torno da refeição. Todos os dias, João apanha peixes e, como quem se engraça pra um bicho de estimação, convoca Chiquinho – nome que resolveu dar à ave, ainda que não tenha certeza se é macho ou fêmea – para saborear o que o rio dá. E quem temeu tanto o que tinha perder, conquistou o que nem poderia vislumbrar. Hoje tem para si o rio, a pesca e ainda alimenta um ser que sabe voar.

Respeite o seu tempo. Quando achar que é a hora, assuma o risco e se desfaça do que não lhe serve mais. Coisas boas acontecem de onde a gente menos espera.

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Se o caso é caminhar

Por Nathália Machado*

Sábado, dia 30 de setembro, último dia do mês, saí de bicicleta. Era minha primeira viagem sozinha e um medo colado em mim insistia em plantar várias situações trágicas na minha imaginação realista fantástica. “E se eu cair?”, “e se baterem em mim?”, “e se levarem minha bike?”.

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Vamos a pé para o 11º Café na Calçada?

No próximo domingo (17), o INCITI participará do 11º Café na Calçada para conversar com  os moradores das Graças que queiram tirar dúvidas sobre a implementação do projeto Parque Capibaribe. O encontro serve para aproximar e engajar os cidadãos sobre as diversas ações que envolvem o bairro e a novidade na edição deste mês será a realização do Bonde a pé para o Café.

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Encontro nacional de cicloativistas celebra a cultura da bicicleta no Recife

O Bicicultura, maior encontro nacional de mobilidade por bicicleta e cicloativismo, acontece no Recife a partir desta quinta-feira, 7 de setembro, e segue com atividades até o domingo, dia 10. Organizado pela sociedade civil e com apoio de instituições parceiras, o evento promoverá atividades esportivas, palestras, oficinas e rodas de conversas, além de atividades para crianças. O encontro acontece todos os anos e tem como principal objetivo incentivar e impulsionar a cultura da bicicleta como meio de mobilidade.

Durante os quatro dias, ações serão realizadas em diferentes lugares da capital pernambucana, como o INCITI/UFPE, Teatro Apolo, Paço Alfândega, Paço do Frevo, Parque Santana, entre outros, que estarão ocupados com uma programação diversa e intensa, promovendo a cultura da bicicleta em todas as suas vertentes: social, cultural, política, econômica e ambiental.

A programação tem representantes de todas as regiões do país, e busca criar um espaço de convívio e compartilhamento de conhecimento entre os ciclistas e toda a população interessada, através dos diversos setores da sociedade, discutindo a democratização urbana, sustentabilidade ambiental e a qualidade de vida que a bicicleta proporciona.

Parque Capibaribe – Como parte da programação do Bicicultura, o INCITI – Pesquisa e Inovação para as Cidades, promoverá a oficina “Incitando a mobilidade ativa: a importância do fortalecimento das redes para cidades cicláveis”. A atividade, que acontecerá no domingo (10), das 10h às 12h, no Parque Santana, na Zona Norte do Recife, irá apresentar as atuais diretrizes de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas desenvolvidas para o Parque Capibaribe, projeto realizado pela Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente, que prevê um sistema de parques integrados ao longo dos 30 km do rio Capibaribe na cidade do Recife. A iniciativa irá conectar espaços e efetivar uma forma mais fácil e segura de se deslocar pela cidade, para pedestres e ciclistas.

As rotas estão sendo contabilizadas como uma estratégia dentro do Plano de Baixo Carbono e visam contribuir para criar novos percursos e conexões na cidade. No encontro, também serão apresentados os trechos de projeto que já foram desenvolvidos e os próximos módulos propostos, a fim de abrir um canal de diálogo e fomentar a cooperação das redes de articulação para a mobilidade.

Todas as atividades são gratuitas e abertas à comunidade. Algumas demandam inscrição prévia e estão sujeitas ao limite de vagas. Para mais informações, acesse: http://bicicultura.org.br.

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Perspectivas, possibilidades e desafios de andar a pé

Por Rodrigo Édipo, Maíra Brandão e Fernando Castro

Apesar de vivermos em cidades que privilegiam os veículos motorizados em detrimento dos pedestres, o ato de caminhar resiste. Segundo dados do Sistema de Informações da Mobilidade Urbana, produzido em 2014, pela Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), 36% das pessoas andam a pé. Quando somados a este número os deslocamentos diários em transportes coletivos, esse indicador passa para 65%, já que essas pessoas têm que andar de suas casas até a parada de ônibus e do trabalho de volta para o ponto.

Com o objetivo de provocar reflexões sobre a caminhabilidade no âmbito do projeto Parque Capibaribe (PCR/INCITI), realizamos, de 07 a 14 de agosto de 2017, em três bairros do Recife, a série de ativações Percursos Sensitivos. A iniciativa integrou a programação nacional da Semana do Caminhar 2017, organizada pelo SampaPé! (SP), e contou com os parceiros locais Coletivo Massapê, Meu RecifeFab Lab Recife.

Coletando percepções. Foto: INCITI/UFPE.

Ativação com crianças: Caminhada Sensitiva | Local: Vila de Santa Luzia

Qual o lugar da criança nas decisões sobre as cidades? Segundo a organização Child Friendly City (CFC), as crianças devem influenciar nas decisões acerca do lugar onde vivem. Com isso em mente, o INCITI/UFPE e o Coletivo Massapê realizaram, nos dias 07 e 14 de agosto de 2017, na Escola Estadual Creusa Barreto Dornelas Câmara, a ativação Caminhada Sensitiva. Foram convidadas por volta de 30 crianças para compartilhar a experiência.

Melina Motta do Coletivo Massapê. Foto: INCITI/UFPE.

No primeiro dia (07), as crianças participaram de uma dinâmica em que algumas perguntas relacionadas ao caminho das mesmas até a escola eram apresentadas. Os pequenos retiravam de uma urna as provocações, liam em voz alta e as colavam em um mural. Logo após, com todas as questões dispostas no quadro, foi a hora de montar um mapa mental do percurso dos jovens por meio de desenhos. “As crianças conseguiram trazer muitos elementos dos trajetos, sempre tinham alguma história pra contar, uma vivência muito diferente da nossa de adulto, arquiteto e urbanista”, relatou Melina Motta, integrante do Coletivo Massapê. A partir dos relatos e para encerrar a dinâmica do dia, foi criado um mapa-mural coletivo com as informações coletadas.

Mapa mental. Foto: INCITI/UFPE

Para o pesquisador espanhol Jorge Larrosa Bondía, “o papel da educação é subverter regras, os procedimentos e as maneiras de fazer”. E o segundo dia de atividades (14) com as alunas e os alunos da escola caminhou nesta direção. Convidar as crianças a percorrer as ruas do bairro e abrir possibilidades de aprendizagem a partir da interação com o território é uma experiência ímpar. Os mapas criados no primeiro dia serviram de base para a caminhada sensitiva, que reuniu cerca de 30 crianças subdivididas em três grupos.

Hora de bater perna. Foto: INCITI/UFPE

As impressões de Nathália Machado, pesquisadora do INCITI/UFPE, ficaram marcadas pela surpresa: “Andar com as crianças me fez perceber quantas coisas influenciam na nossa percepção sobre a rua. Enquanto a gente observava arborização, calçadas e dimensões de ruas, eles nos mostravam a venda, a casa da vó, a rua que vai pra escola. Essa percepção só é possível quando se é dono do lugar”.

Para Anne Rose, professora da Escola Creusa Barreto Dornelas Câmara, o desafio diário é fazer com que a comunidade seja parte do processo de aprendizado das crianças. “Essa atividade é maravilhosa, pois é muito importante o aluno reconhecer o local onde vive como seu. A Vila de Santa Luzia foi construída a partir de vários bairros, então alguns alunos não se sentem pertencentes ao local”, pontuou.

No Baobá visitantes e frequentadores trocaram experiências. Foto: INCITI/UFPE

Debate: Bem Viver e Direito à cidade | Local: Jardim do Baobá

A primeira roda de conversa, de uma série de três, realizada na Semana do Caminhar no Recife, lançou um olhar para a necessidade de transformarmos a cidade a partir de nós mesmos. O encontro aconteceu na última quarta-feira (11), no Jardim do Baobá, e mobilizou jovens e adultos interessados em trocar experiências a partir da ótica de quem costuma bater perna pela cidade. Em paralelo, no mesmo local, aconteceram atividades com crianças com o objetivo de também trazer o olhar infantil para o tema.

Convidado pela equipe do INCITI/UFPE, o professor e ativista do coletivo A Cidade Somos Nós, Leonardo Cisneiros, apresentou como os conceitos de Direito à Cidade e Bem Viver estão refletidos no nosso cotidiano. “Uma cidade sem direitos tem um problema de democracia, pois é um modelo individualista e não sustentável. A ideia do Bem Viver é comunitarista e preserva o meio ambiente, como por exemplo as iniciativas de agroecologia familiar”, exemplificou.

Sustentabilidade, segurança e gênero foram temas da conversa. Foto: INCITI/UFPE

O ato de caminhar é uma maneira de exercermos de forma autônoma a busca pelos nossos direitos. Morador do bairro da Boa Vista, o arquiteto Alexandre Ramos, encontra facilidades. “No centro tudo é perto, boa parte do meu percurso posso fazer a pé, mas muita gente não faz, e assim não usa a cidade”, relatou. Segundo Alexandre, enquanto não construirmos o pertencimento da cidade, várias motivos serão levantados contra o ato de caminhar. “Fiz uma postagem nas redes sociais sobre o meu trajeto diário e muita gente argumentou que não anda a pé por medo, calor ou pelas calçadas ruins”, afirmou.

A segurança pública é um tema que impacta as mulheres. Segundo Letícia Lins, 66 anos, a violência não está necessariamente vinculada ao ato de andar a pé. “Eu, de carro, já fui assaltada cinco vezes. A pé, apenas uma vez. Aí me pergunto: qual o mais perigoso?”, provocou. Já a arquiteta Adryana Rosendo tem um histórico diferente: “Chego a me sentir mais segura andando dentro das comunidades, pois fora delas já fui assaltada nove vezes caminhando”. Para encerrar as atividades do dia, houve uma dinâmica de coleta de desejos para uma cidade mais caminhável, que irão subsidiar as pesquisas do projeto Parque Capibaribe.

Mulheres e homens pautam a questão de gênero. Foto: INCITI/UFPE

Debate: Gênero e empoderamento | Local: Graças

Trazendo um recorte de gênero, a pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre transporte público revela que 54% das pessoas que se deslocam a pé e de ônibus são mulheres. Por isso, um dos debates da Semana do Caminhar no Recife teve o olhar direcionado para as questões sobre gênero e empoderamento feminino na cidade. O encontro, que ocorreu na última quinta-feira (10), à beira do rio, no bairro das Graças, reuniu homens e mulheres trocando experiências sobre os riscos e vantagens de andar a pé, afirmando as transformações que o feminismo tem possibilitado no dia a dia, e compartilhando possíveis soluções para lidar com questões como segurança e infra estrutura, grandes influenciadoras na vida de quem opta por (ou não tem opção, a não ser) andar a pé.

Moradora da Caxangá, a estudante de jornalismo Daniela Marreira, que faz seus percursos a pé e de ônibus, contou que não sai de casa após às 18h, por já ter sido perseguida em pelo menos três ocasiões. Mas conta que os aprendizados com o feminismo têm lhe ajudado a se posicionar frente à uma série de dificuldades. “A consciência de ser mulher mudou completamente a forma de entender o meu corpo e como eu lido com a cidade”, disse.

Já o aspirante a arquiteto, Pedro Rosas relatou que, após uma série de relatos sobre assaltos e estupros próximo da faculdade onde estuda, no Derby, a coletividade e solidariedade dos afetados resultou na criação de grupos de Whatsapp para combinar a travessia da ponte que leva ao ponto de ônibus mais próximo. Para a moradora das Graças, Maria de Lourdes, a má conservação das calçadas são um grande obstáculo: “Eu tenho 63 anos, é mais difícil. De vez em quando eu caio. É complicado andar numa cidade cheia de buracos. Andar a pé não é só questão de consciência, mas de possibilidade”.

Maria de Lourdes alerta sobre as calçadas. Foto: INCITI/UFPE

Uma das convidadas para o debate, a mestre em desenvolvimento urbano, Lúcia Siqueira, falou sobre tornar as cidades seguras para as mulheres  e provocou o público a acompanhar a revisão do plano Diretor do Recife. “Muitas vezes quem está no papel de tomar a decisão não entende a necessidade de quem vive na cidade”, disse. Para encerrar a roda, Circe Monteiro, coordenadora do INCITI/UFPE, fez uma dinâmica para que os presentes escrevessem em um papel “para quem deveríamos estar falando?”. As respostas variaram, mas Daniela resumiu bem: “Para as mulheres, para empoderar; para os homens, para conscientizar; e para os tomadores de decisão, para transformar”.

Econúcleo Jaqueira recebeu a roda de conversa. Foto: INCITI/UFPE

Debate: Mobilidade Ativa | Local: Jaqueira

Barata, saudável e prática. A Mobilidade Ativa, forma de deslocamento para transporte de pessoas que utiliza unicamente a força do corpo para a locomoção, foi assunto da quarta atividade da Semana do Caminhar, que abordou as principais dificuldades enfrentadas pelos pedestres e ciclistas na cidade do Recife. O debate ocorreu na última sexta-feira (11), no Econúcleo do Parque da Jaqueira e apresentou depoimentos sobre os diferentes modos da população se locomover e interagir pela cidade.

A roda de conversa teve início com a fala de Djair Falcão, engenheiro sócio-ambiental do INCITI/UFPE, que apresentou o conceito e destacou as vantagens da mobilidade ativa. O bem estar físico e mental, além de um deslocamento mais prático, foram os motivos apresentados pelo pesquisador. No Recife, os desafios para a a implementação deste tipo de modal, são evidenciados nas condições precárias de segurança que a cidade enfrenta. Tal argumento foi defendido por participantes do debate.

Djair Falcão é ativista da mobilidade ativa. Foto: INCITI/UFPE

Em contrapartida, a convidada Nadja Granja, arquiteta e secretária de Mobilidade e Controle Urbano da Prefeitura do Recife, destacou a importância do envolvimento dos cidadãos. ‘’A gente precisa novamente se apropriar da cidade. Uma rua com mais pessoas circulando é uma rua menos deserta e mais segura, a população tem que trabalhar em conjunto com o governo’’, ressaltou.

A arquiteta ainda defendeu a conservação das calçadas como um dos pontos cruciais. ‘’Precisamos entender a calçada como rota e não apenas como um meio de passagem, devemos enxergá-la como um modal de transporte e, para isso, é de fundamental importância uma campanha educativa para os cidadãos entenderem a necessidade de priorizá-la’’, afirmou Nadja. Para encerrar a roda de conversa, foi realizada uma dinâmica na qual os participantes escreveram suas reivindicações direcionadas ao governo e toda a população em geral, defendendo uma cidade mais amigável para os pedestres e ciclistas.

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Parque Capibaribe inspira Semana do Caminhar no Recife

Iniciativa acontece simultaneamente em nove cidades do Brasil e pauta a necessidade de um desenvolvimento urbano mais amigável para os pedestres

A mobilidade a pé é um dos pilares que compõem a construção colaborativa da Nova Agenda Urbana (NAU), documento chancelado pela ONU-Habitat que irá guiar o desenvolvimento sustentável do planeta até 2036. No Recife, o desenvolvimento de uma cidade mais amigável para pedestres e ciclistas vem sendo planejado pelo Parque Capibaribe, projeto realizado através de parceria entre a Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (SDSMA), e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), através do INCITI – Pesquisa e Inovação para as Cidades. É a partir desse cenário de futuro que está sendo desenhado na capital pernambucana, que será realizada, a partir de segunda-feira (7), em três bairros da cidade, a série de ativações Percursos Sensitivos. A iniciativa integra a programação nacional da Semana do Caminhar 2017, organizada pelo SampaPé! (SP), e promovida no Recife pelo INCITI, em parceria com o Coletivo Massapê e com apoio da Prefeitura do Recife.

A série de ativações Percursos Sensitivos terá como pano de fundo as premissas do projeto Parque Capibaribe: abraçar, chegar, percorrer, atravessar e ativar. A ideia é lançar um convite para a construção coletiva de uma cidade mais amigável para pedestres e ciclistas. “A proposta é de construir novas diretrizes para a mobilidade ativa, abrir um canal de diálogo e fomentar a cooperação das redes de articulação para a mobilidade”, declara o coordenador de Ativação do INCITI/UFPE, Caio Scheidegger.

A primeira atividade acontece na segunda-feira (7), das 14h às 17h, na Vila Santa Luzia, com as crianças da Escola Creusa Barreto Dornelas Câmara. Na ocasião, os estudantes serão envolvidos em uma imersão, a fim de diagnosticarem suas experiências de deslocamento de casa até a escola. De quarta (9) a sexta-feira (11), uma série de debates serão abertos ao público, em diferentes espaços de influência do Parque Capibaribe, a fim de incitar a reflexão sobre o caminhar na cidade. Na quarta-feira, das 14h às 17h, a roda de diálogos sobre o Bem Viver e o Direito à Cidade será no Jardim do Baobá. Já na quinta-feira (10), das 14h às 17h, a beira do rio, no final da rua das Pernambucanas, abriga o debate sobre gênero e empoderamento feminino na cidade. O tema da mobilidade ativa será discutido na sexta-feira (11), das 14h às 17h, no Econúcleo Jaqueira. Pra encerrar a Semana do Caminhar no Recife, a Vila Santa Luzia recebe uma segunda rodada de atividade colaborativa com as crianças da comunidade, na segunda-feira (14).

Para mais informações sobre as atividades: http://bit.ly/sdocaminhar | ativar@inciti.org.

Ação – A Semana do Caminhar 2017 é um evento que celebra o caminhar e chama atenção para este modo de se deslocar e interagir com a cidade. Organizado pelo SampaPé!, conta com muitos parceiros e acontece entre os dias 7 e 13 de agosto, em 9 cidades brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Manaus, Juazeiro do Norte, São Carlos, Recife e Porto Alegre). Em sua primeira edição, traz o tema: “Caminhar dá liga”. Pelo caminhar, todos os meios de transportes são interconectados e as pessoas se ligam mais com a cidade e com outras pessoas.

SampaPé! é uma organização sem fins lucrativos fundada em 2012 com o objetivo de melhorar a experiência do caminhar na cidade. Nasceu com o objetivo de aproximar o cidadão da sua própria cidade através do deslocamento a pé, pois é a forma mais próxima e humana de interação com a cidade.

INCITI – Pesquisa e Inovação para as Cidades é uma rede de pesquisadores transdisciplinar da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) que acredita na capacidade do cidadão em transformar a própria cidade. Propõe investigar a experiência urbana, analisar qualidade do espaço e do comportamento dos habitantes, além de buscar a compreensão dos processos, das pessoas e de suas reflexões.

Parque Capibaribe – O projeto prevê um sistema de parques integrados no Recife que se estenderá por 30 km do percurso do rio Capibaribe. Desenvolvido por meio de um convênio inovador entre a Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Recife (SDSMA), e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por meio do INCITI.

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Serviço
Percursos Sensitivos | Semana do Caminhar 2017
Informações: http://bit.ly/sdocaminhar

Programação:
Vivência – Caminhada Sensitiva – Para os alunos da Escola
Quando: Segunda-feira, 07 de agosto de 2017
Onde: E.E.R.E.F. Creusa Barreto Dornelas Camara (Rua Cantora Clara Nunes – Vila Santa Luzia, Torre – Recife)
Hora: 14h às 17h
Parceria: INCITI, Coletivo Massapê e E.R.E.E.F. Creusa Barreto Dornelas Camara

Debate – Bem Viver e Direito à Cidade
Quando: Quarta-feira, 09 de agosto de 2017
Onde: Jardim do Baobá (Rua Madre Loyola, 2 – Graças – Recife)
Hora: 14h às 17h
Aberto ao público

Debate – Gênero e empoderamento feminino na cidade: A mulher na construção do espaço público
Quando: Quinta-feira, 10 de agosto de 2017
Onde: Graças, no final da Rua das Pernambucanas, próximo ao Rio Capibaribe.
Hora: 14h às 17h
Aberto ao público

Debate – Mobilidade Ativa
Quando: Sexta-feira, 11 de agosto de 2017
Onde: Jaqueira, Econúcleo do Parque da Jaqueira
Hora: 14h às 17h
Aberto ao público

Vivência – Caminhada Sensitiva – Para os alunos da Escola
Quando: Segunda-feira, 14 de agosto de 2017
Onde: E.E.R. Creusa Barreto Dornelas Camara (Rua Cantora Clara Nunes – Vila Santa Luzia, Torre – Recife)
Hora: 14h-17h
Parceria: INCITI, Coletivo Massapê e E.E.R.E.F. Creusa Barreto Dornelas Camara