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Rios e redes: uma realidade que não é só do Recife

Num domingo dedicado ao lazer em Quito, no Equador, Ismael e Juan, 10 e 12 anos, sentaram distraídos sob a sombra do guarda-sol, nas cadeiras de praia coloridas dispostas próximas ao laguinho do Parque La Alameda. Os meninos percorrem, todos os domingos, um trajeto de uma hora até o sítio, onde desfrutam do tempo livre e nada sabiam sobre a atividade realizada pelo INCITI/UFPE naquele local. Cheguei junto pra falar que estávamos promovendo uma praia no intuito de chamar atenção para o cuidado com os rios urbanos e após uma breve conversa perguntei sobre o Machángara, principal curso d’água de Quito. “Es muy puerca”, foi a resposta imediata, assimilando o rio ao mamífero que carrega consigo a fama de sujismundo. A poluição do principal rio da cidade não os permite aproveitar a água, mas depois de alguma confabulação a mais sobre o futuro, eles disseram que gostariam de nadar nesse importante curso d’água, se ele fosse limpo.

 

Um papo com Ismael e Juan

A gente quer nadar no Capibaribe e parece que muitos também desejam usufruir de suas águas fluviais. A contaminação do rio por dejetos domésticos e industriais não é uma exclusividade da realidade recifense, mas a consciência para a preservação e a participação popular são ferramentas eficientes para a transformação das nossas cidades e das quais todos podem se beneficiar. Foi com isso em mente que fizemos esse circuito equatoriano apresentando a metodologia de ativação dos espaços públicos que tem sido utilizada no projeto Parque Capibaribe, no Recife, em parceria com as Praias do Capibaribe.

Entre os dias 15 e 20 de outubro o INCITI/UFPE – representado pelos diretores Circe Gama Monteiro e Roberto Montezuma, e pelos pesquisadores Amanda Florêncio, André Moraes de Almeida e Maíra Brandão – participou da Habitat III – Conferência das Nações Unidas sobre Habitação e Desenvolvimento Sustentável, que reuniu cerca de 30 mil pessoas na capital do Equador, no intuito de promover encontros, debates e incentivar o comprometimento destes milhares de agentes na implementação da Nova Agenda Urbana, documento elaborado ao longo dos últimos dois anos, no intuito de guiar o desenvolvimento urbano sustentável durante as próximas duas décadas.

Equipe INCITI na Habitat: Amanda Florêncio, André Moraes de Almeida, Maíra Brandão, Roberto Montezuma e Circe Gama Monteiro.

Além de todo esse papel de discussão e articulação, o INCITI participou do evento com a ativação “I want to swim in my river – Machángara Beach” (em tradução livre: Eu quero nadar no meu rio – Praia do Machángara). Em 60 anos desde a primeira edição da Habitat, realizada em 1976, esta foi a primeira vez que a Conferência abriu espaço para soluções e intervenções urbanas serem realizadas paralelamente às mesas redondas, negociações e palestras. Aliás, segundo a ONU-Habitat, este foi notadamente o evento com maior participação da sociedade civil e de gestores municipais, desde que tiveram início as discussões sobre o desenvolvimento das cidades, por meio das Nações Unidas.

Ainda no avião, conheci Kenneth Smith, urbanista da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, com quem tive a primeira de uma série de conversas sobre a atividade que nos levava a Quito. Ele contou que o principal rio do seu estado também sofria com a degradação ambiental. “É triste que isso esteja acontecendo em vários lugares do mundo, mas ainda bem que tem gente como a gente pensando e se juntando pra tentar reverter essa situação”, disse, otimista.

Um vez que o rio Machángara ficava longe da Casa de la Cultura Ecuatoriana, epicentro da Habitat, fizemos a primeira praia no Parque La Alameda, que ficava a cerca de 10 minutos do evento. Foi lá que conhecemos Ismael e Juan, no domingo, 16 de outubro. Era um parque popular, onde os equatorianos curtem o domingo e foi para eles que apresentamos a nossa proposta, num dia super proveitoso. Só foi uma pena que caiu um temporal no meio da tarde e tivemos de recolher a Praia do Machángara mais cedo do que o previsto. Mas teríamos um segundo dia de atividades na quarta-feira (19), e a previsão do tempo estava a nosso favor.

Um dia de Praia no Parque La Alameda.

Como a ideia era apresentar a praia para os participantes da Habitat e no primeiro dia de intervenção tivemos poucos visitantes, avaliamos que poderíamos explorar melhor esse público se fôssemos mais pra perto da Casa de la Cultura. Assim, negociamos com a produção da Conferência e levamos o segundo dia de Praia para o Parque El Ejido, colado com a Habitat.

O palpite foi certo sobre mudar a intervenção de lugar. Da manhã até a noite, passaram por lá pessoas de vários países interessadas nos processos de recuperação dos rios urbanos com participação popular: Chile, Uruguai, Equador, Brasil, Alemanha, e mais. Logo na chegada conhecemos Max, um anjo que nos ajudou a montar a praia no novo local. Ele estava à nossa procura, a fim de promover o intercâmbio entre as praias, uma vez que promove uma iniciativa similar em Montreal, no Canadá, ao longo dos cinco meses de verão que têm por lá. Apaixonou-se pelo colorido das chitas e ficou interessado na forma como temos pensado a margem do rio como ponto de encontro, reflexão e também de tensão entre interesses econômicos e sociais tão evidentes nas diferenças entre as habitações das margens direita e esquerda do rio Capibaribe.

Uma praia no meio da capital do Equador. Desta vez no Parque El Ejido.

Foram praias bem distintas, de público e de participação, mas foi muito bacana a experiência de demonstrar um pouquinho do que temos feito pelo Recife, alhures, além de nos conectarmos com pessoas e iniciativas de outros lugares do planeta, que fazem ou desejam desempenhar um papel similar ao que o INCITI/UFPE tem se proposto. Muitos contatos, muitos aprendizados.

UTCs – Circe Gama Monteiro, coordenadora do INCITI, participou da mesa “O Papel dos Urban Thinkers Campus na implementação da Nova Agenda Urbana”, no dia 17 de outubro. Os principais pontos ressaltados pela pesquisadora sobre a edição brasileira do UTC foram a transdisciplinaridade e a horizontalidade na construção de conteúdo e de diretrizes para a cidade que precisamos. “Nós seguimos a receita da ONU-Habitat pro UTC, mas cozinhamos de uma maneira diferente. Os participantes do Urban Thinkers Campus não queriam falar em grupos somente deles para eles mesmos. Gestores com gestores, mulheres com mulheres, jovens com jovens. Então formaram-se grupos maiores e diversos pra construir as recomendações que contribuíram com a Nova Agenda Urbana”, contou.

Circe Gama Monteiro, na mesa sobre o papel dos Urban Thinkers Campus

Monteiro também falou a respeito da importância da comunicação como essencial no processo de construção de diálogo entre as realidades diversas em uma cidade e na construção do imaginário coletivo. “Um dos grandes desafios que temos que enfrentar é o controle dos meios de comunicação por políticos, por poderosos. Através da comunicação a gente desenvolve consciência, senso crítico, e aí podemos estruturar a aplicação de toda essa força que vem com a união dos diversos agentes pensando em cidades melhores para as pessoas”, falou a coordenadora.

Falando em comunicação, na mesa Urban Journalism Academy, o repórter do Citiscope, Greg Scruggs, citou o UTC Recife, como o tipo de história que move o trabalho dos jornalistas que escrevem sobre processos de urbanização. “Quando vários ativistas pelo direito à cidade se juntam, fecham uma rua, lutam por questões locais e fazem grandes festas para celebrar suas conquistas, como aconteceu no Urban Thinkers Campus Recife, isso nos motiva”, disse. Foi a cereja do bolo.

Habitat III e a Nova Agenda Urbana – As grandes discussões que aconteceram antes e durante a Habitat III são apenas o começo do futuro que está por vir. Mas uma das coisas mais evidentes de todas as conversas que participei foi a importância do papel das universidades, das organizações não governamentais e da sociedade civil no processo do desenvolvimento urbano sustentável, assim como da necessária união entre os diferentes representantes dos setores público, privado e da academia. “Não dá pra fazer nada disso sozinho” e “It’s all about people”, repetiram em várias mesas, quase um mantra. E só me vinha à memória o saudoso Daniel Pádua, que sempre dizia “tecnologia é mato, o que importa são as pessoas”. O dito pode ser adequado a qualquer realidade. O que importa são as pessoas.

Mais fotos no www.flickr.com/inciti.

O que importa são as pessoas. ?

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A Cidade Que Precisamos tem: Identidade Singular

Diagnósticos:

O processo de reprodução das cidades tem resultado na destruição da memória urbana e desvalorização das memórias coletivas. A construção do “novo” tem destruído a história e destituído as pessoas de seus lugares, estabelecendo fronteiras entre esses dois atores. Na maior parte das cidades brasileiras, predomina a cultura de um desenho urbano pasteurizado incapaz de reconhecer laços afetivos, singularidades e características identitárias das pessoas e dos lugares. As políticas de habitação vigentes desconsideram as formas de culturas tradicionais de morar e construir. Elas reproduzem apenas tecnologias de construção hegemônicas e insustentáveis, assim como modos de vida massificados.

De natureza excludente, ela é apoiada e referendada pelas instituições de formação técnica profissional que, via de regra, respondem apenas ao setor empresarial. São cidades produzidas exclusivamente sob a lógica mercantilista que resultam no esvaziamento dos espaços públicos, produzem espaços hostis e cidades sem alma. Os espaços públicos são alienados, padronizados, segregadores, hostis e inibem a convivência, a solidariedade e o sentimento de pertencimento.

Há também um processo crescente de privatização do espaço urbano que inclui o loteamento do espaço das ondas eletromagnéticas, responsáveis por boa parte das comunicações no âmbito da cidade. Não existe um plano urbanístico para o espaço eletromagnético e estudos sobre o impacto da detenção do espaço  por esses sujeitos alheios às cidades.

Inexistem quaisquer movimentos para a discussão do papel das comunicações sem fio de acesso indistinto voltado para a vida das cidades. Há também a falta de espaço urbano comunicacional autônomo e independente e, em contrapartida, redes monopolizadas e mercantis de comunicação dominam o mercado, subjugando a população a seus protocolos.

A cultura é diminuída a produto meramente comerciável e, como decorrência, os programas de cultura centralizados, desconhecem as especificidades locais e geram dificuldades no acesso às ações culturais, bem como aos mecanismos de financiamento da cultura.

Inexistem, tanto nos espaços formais de aprendizagem dos segmentos estaduais, municipais e /ou privados, quaisquer programas ou redes de discussões sobre cultura, em termos genéricos.

Recomendações:

A partir de uma identidade regional, autônoma e progressista, é necessário o do-in antropológico, ou seja: fortalecer cada rede, cada comunidade, cada conexão que se ocupe em incentivar e contribuir com o processo de afirmação da cultura popular comunitária e digital a partir da troca de saberes dos pontos de cultura e grupos comunitários. Empreender esforço para a criação de canais de comunicações abertos e livres.

Conectar ferramentas e plataformas de trabalhos livres de modo a atuar na formação multimídia destes pontos, incentivar a produção horizontalizada e de baixo pra cima e investir na divulgação de suas produções em acervos culturais digitais, a exemplo de rádios comunitárias, rádio web, portais como http://www.iteia.org.br,http://www.nacaocultural.org.br, http://www.youtube.com.br, http://www.corais.org, redes sociais, blogs e TVs públicas.

Promover programas de capacitação técnica dos agentes públicos para facilitar o acesso e a gestão de recursos na cultura, a fim de potencializar a cultura na raiz da sua criação.

Criar espaços físicos e políticos para experimentação e expressão livre, com grau zero de formalização e codificação do espaço publico (terreiros de matriz africana, quermesses e toré), public space for all.

Possibilitar o uso e ocupação do solo de forma a permitir o imprevisível, o aberto e o inesperado, bem como trazer à tona o sentido de pertencimento e a consequente apropriação dos territórios pelas comunidades.

Aproximar a academia, a gestão pública, os coletivos e movimentos das realidades locais com o intuito de  reunir os saberes entre esses segmentos.

Valorizar as memórias coletivas, proteger e promover o patrimônio local a partir de uma gestão compartilhada.

Incluir a cultura como um vetor do desenvolvimento sustentável e norteador de concepção e gestão de políticas públicas.

Criar programas profissionalizantes para jovens baseados nas culturas locais sob a perspectiva do desenvolvimento sustentável.

Valorizar a cultura e a história de modo conjugado com o meio ambiente – espaços verdes e espaços de amenidades e encontros, ambientes generosos nas cidades.

Elaboração de código de ética para que fornecedores e desenvolvedores de tecnologias de Comunicação e Informação (TICs) para “Cidades Inteligentes”, sejam signatários.

Implantação do formato “Solução Pactuada” em relação a dados e informações capturados e retidos por dispositivos eletrônicos.

Contratos públicos deverão ser abertos e transparentes, principalmente quando relacionados à instância pública de comunicação digital para cidades.

Garantir apoio para desenvolvimento de tecnologia de redes colaborativas e p2p, apoio e fomento para a construção de soluções em software livre e garantias de liberdade para construir suas soluções próprias e específicas para troca de informações em casos particulares e em âmbito comunitário.

Apoiar o desenvolvimento de tecnologias tradicionais e de baixa tecnologia que sejam capazes de mitigar o impacto das mazelas industriais, bem como a inovação tecnológica com base no conhecimento tradicional.

Conhecer, respeitar e dialogar com as especificidades das realidades locais e suas estruturas sociais no momento de implantação de tecnologias ou soluções digitais para a cidade.

Fomento à constituição de redes autônomas de comunicação, Rádio e TV, telefonia e de troca de dados, no âmbito das cidades, de forma a aumentar a independência da lógica mercantil e do poder.

Profunda atenção no processo de digitalização do Rádio e da Televisão, de modo a reservar o espaço necessário para a inovação, criatividade e senso de comunidade, através da salvaguarda de espaço no espectro eletromagnético para comunicações fora do âmbito dos governos ou corporações.

Estudo aprofundado sobre as consequências da apropriação privada de um bem público e comum (espectro eletromagnético), de modo a congregar atores da sociedade civil, movimentos culturais, habitantes desfavorecidos e agentes urbanos em um plano de utilização do espaço comunicacional sem fio.

Ação imediata pela regulamentação da norma da tripartição do uso do espectro eletromagnético, com a garantia de espaço publico, não licenciada e independente, de acordo com as necessidade urbanas e seus agentes sociais.

Fomento para a constituição de instâncias consultivas e decisórias no âmbito das comunicações urbanas sem fio, para que a utilização do espaço não seja restrita a interesses financeiros ou político-partidários.

Até a semana da Habitat III, conferência da ONU sobre moradia e desenvolvimento urbano sustentável, o blog do INCITI apresentará os diagnósticos e recomendações dos nove fundamentos criados a partir dos debates e discussões realizadas durante o evento para a Nova Agenda Urbana.

*Texto publicado originalmente na página do UTC Recife, evento coordenado pelo INCITI que ocorreu em novembro de 2015 e reuniu diversos pensadores urbanos engajados em transformar cidades.