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Plano Urbanístico Ambiental é mais um legado do Parque Capibaribe

por Lenne Ferreira

“Sustentabilidade é um processo através do qual as comunidades presentes e futuras florescem harmoniosamente”. A premissa extraída da Rede de Desenvolvimento Urbano Sustentável da América Latina e Caribe – REDEUS-LAC serviu de base para a construção do PURA – Plano Urbanístico de Recuperação Ambiental do Rio Capibaribe. O documento desenvolvido pela equipe transdisciplinar da INCITI/UFPE e que se encontra em fase de formatação para divulgação, apresenta a síntese dos produtos resultantes do convênio técnico entre a Universidade Federal de Pernambuco e a Prefeitura do Recife para a implantação do projeto Parque Capibaribe. As diretrizes para a construção de um sistema de parques integrados em torno do Capibaribe também fazem parte desse compilado que apresenta uma diversidade de conhecimentos que visa incitar, junto a diversos setores da sociedade, novos conhecimentos capazes de transformar a relação do recifense com a cidade.

Pesquisa com crianças no Jardim do Baobá. Foto: Rodrigo Édipo

O PURA foi formulado pelo corpo de pesquisadores da INCITI/UFPE com base em um estudo aprofundado dos aspectos urbanos e ambientais da bacia hidrográfica. Engenheiros, arquitetos, biólogos, urbanistas, jornalistas, economistas e ainda profissionais de áreas como Serviço Social, Pedagogia, Psicologia e Direito participaram da construção do documento, que poderá servir de referência para gestões futuras. Inicialmente, a equipe de pesquisadores da INCITI buscou entender o território e como a cidade se comporta ao longo do Rio Capibaribe, tanto o ambiente construído quanto o natural. Foram realizadas várias pesquisas, experimentações e conversas com as pessoas que moram e andam nessas áreas para poder entender as diversas camadas que compõem o tecido urbano e ambiental. “A partir desse estudo de campo, foram traçadas diretrizes que ajudaram a nortear os produtos do Parque Capibaribe, mas também vão servir para apoiar quaisquer projetos que sejam pensados na área”, explica a arquiteta e urbanista Raquel Meneses, coordenadora de projetos do Parque.

“O papel do arquiteto e urbanista é mais de facilitador do que de projetista. Transformar em projeto o que as pessoas que vivem no lugar precisam” (Raquel Meneses)

As pesquisas de desenvolvimento do projeto Parque, iniciado em 2014, foram utilizadas para a construção do PURA, que se baseia nos dados e nas informações colhidas em excursões, capacitações, estudos sobre fauna, flora e vitalidade do rio,  identificação das áreas com maior densidade, ativações e ações educativas. Um processo que em sua natureza metodológica quebra paradigmas em relação aos planos urbanos tradicionais, ao retirar a ênfase no produto final e focando no processo como produto. A partir de um olhar de baixo para cima, baseado nas premissas do Urbanismo Emergente, foi possível melhor identificar soluções que tinham como sustentação as potencialidades dos grupos envolvidos no território. Como foi o caso do Workshop Internacional de Prototipagem Urbana (WIPU), que envolveu pesquisadores locais e internacionais, instituições de ensino, órgão dos poderes público e privado, comerciantes informais e estudantes no desenvolvimento de um desenho urbano que experimentasse soluções a médio e curto prazo para diversos dilemas espaciais e sociais.

“…para atuar na cidade de forma bem-sucedida, entendemos que não é mais possível conceber um grande projeto fechado a ser implementado ao longo do tempo baseado somente na concepção dos planejadores. Já sabemos, por diversas experiências passadas, que muitos projetos ambiciosos fracassam por engessarem as condições de mudanças, por não responderem às demandas dinâmicas da cidade e da sociedade” (Trecho retirado do PURA).

Vanessa Reis, arquiteta e urbanista, mestra em Desenvolvimento Urbano pela UFPE, que também atua no INCITI, realizou algumas expedições para fazer a leitura da paisagem construída na perspectiva de retomar o Capibaribe como protagonista da estruturação paisagística urbana. “O Rio Capibaribe foi um elemento estruturador desde o início da ocupação do Recife, que é uma cidade aquacêntrica (centrada nas águas) e nos valores das águas. Com o advento do carro e da ocupação territorial, as águas foram esquecidas como alternativa para mobilidade. O Parque Capibaribe partiu da necessidade de se olhar para este rio como desenvolvedor do espaço construído da cidade e da relação das pessoas com ele e o PURA contém o registro de todo esse processo”, observa Vanessa.

O Plano tem como diretrizes prioritárias a ampliação da oferta dos espaços verdes públicos, recuperação e fortalecimento do corredor ecológico do Rio Capibaribe, a criação dos corredores ambientais conectando os espaços verdes, ampliando a diversidade e promovendo a abundância de espécies nativas. Ao todo, 30 quilômetros (15 de cada margem do rio) foram observados para a construção de uma estratégia de trabalho que apresentasse um olhar mais delicado para a fauna e a flora, além do compromisso em realizar – através de workshops, pesquisas e consultas públicas – processos colaborativos para a consolidação de um projeto que tem impacto na vida de quem vive a/na cidade.

Raquel Meneses, coordenadora de projeto do Parque Capibaribe. Foto: INCITI/UFPE

“As pessoas foram importantes em várias camadas desse processo. Uma fonte ímpar para conhecer cada lugar. Para entender os lugares, só ouvindo as pessoas que vivem lá. São elas que sabem e são elas que vão usar. O papel do arquiteto e urbanista é mais de facilitador do que de projetista. Transformar em projeto no que as pessoas que vivem naquele lugar precisam. Pesquisa, experimentos e observação são formas de absorver esse conhecimento que elas já tem”, pontua a urbanista Raquel Meneses. Outra participação importante da população diz respeito à vigilância da aplicação das diretrizes do PURA. Só conhecendo a cidade é possível cobrar melhorias para a infraestrutura sem desrespeitar o meio ambiente. Apesar de ser um documento técnico, quando concluído, o PURA ficará disponível para consulta pública.