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Parque Capibaribe como um norte para o Plano Diretor do Recife

Lenne Ferreira

O Rio Capibaribe como um norte para uma cidade mais conectada com a paisagem natural é um dos pontos defendidos pela INCITI/UFPE como estratégico para a revisão do Plano Diretor do Recife. A atualização do instrumento, que está em fase de análise na Câmara de Vereadores do Recife, orienta, entre outros aspectos, a ocupação do solo urbano levando em consideração o interesse coletivo e social. Para tornar o processo mais democrático, a equipe da INCITI ouviu vários setores da sociedade, que legitimaram as propostas por meio de um abaixo-assinado com a participação de pesquisadores, instituições e cidadãos recifenses que contribuíram direta ou indiretamente com a consolidação do Parque Capibaribe como um projeto de cidade para o Recife.

As sugestões de emendas ao projeto de lei Nº 28/2018 que prevê a revisão do Plano Diretor do Recife já foram protocoladas na Câmara de Vereadores e sintetizam as diretrizes do projeto Parque Capibaribe. A cada década, conforme instituído pelo Estatuto da Cidade, o Plano deve ser atualizado para melhor atender questões como a conservação do ambiente natural, traços da história, identidade locais, além da ocupação e usos do solo urbano. Por isso, pesquisadores, instituições e sociedade civil como um todo podem e devem participar desse processo, que tem impacto direto na vida de todos e todas.

Sob análise na Câmara, as propostas versam sobre a preservação e fortalecimento do corredor ecológico do Rio Capibaribe. De acordo com o documento protocolado e assinado pela INCITI/UFPE, “as pesquisas provenientes do projeto Parque Capibaribe permitiram que fosse construída uma visão integrada sobre a relevância do rio para a cidade e os impactos da cidade no rio, diante de processos históricos de valorização e desvalorização de suas margens buscando resgatar a importância deste curso d’água para o Recife e, em nome de valores ecológicos, ambientais, paisagísticos, históricos, culturais, sociais e de uso”. O documento é um registro da contribuição dos estudos desenvolvidos a partir da implementação do projeto Parque Capibaribe, que tem como foco a qualidade de vida e conservação do meio ambiente.

Coordenadora de projetos da INCITI, Raquel Meneses defende um Plano Diretor que priorize e torne mais acessíveis as áreas verdes (Foto: Acervo INCITI/UFPE)

“O Parque do Capibaribe tem o objetivo de traçar um projeto de recuperação ambiental que é baseado na transformação dos hábitos da sociedade e melhoria da qualidade de vida. Por isso, identificamos como necessário tratar, principalmente, da questão ambiental e da forma como as construções interferem na paisagem natural. Os eixos que tomamos como base foram natureza e paisagem. A partir destes dois pontos, começamos a pensar no ambiente construído. Por exemplo, tratar do ambiente natural do corredor ecológico do rio faz com que a gente pense diretamente nas edificações do seu entorno”, explica a Coordenadora Executiva de Projetos do Parque Capibaribe, Raquel Meneses.

A arquiteta e urbanista exemplifica. “Se tiver um prédio muito alto na beira do rio isso vai gerar sombra sobre o rio e a vegetação de borda, o que influencia tanto na qualidade da água como na qualidade do habitat das plantas e animais. Prédios muito altos vão fazer sombra e o meio ambiente não vai se desenvolver da maneira que deveria. Muita construção à beira do rio gera sobrecarga de tráfego, automóvel, emissão de gases poluentes,  resíduos de combustível, além do barulho, que afetam a qualidade do ambiente natural, podendo inclusive contaminar a água do rio. Nós propomos que a cidade seja construída de forma a não prejudicar o ambiente natural nem a paisagem do rio”. 

O Plano Diretor é atualizado a cada 10 anos

A necessidade de espaços verdes e de lazer que atendam a população e que se conectem entre si foi outra preocupação da INCITI/UFPE na hora de pensar nas propostas de emendas. Raquel observa que os espaços verdes ainda são escassos. “Temos muita área verde privada ou na borda da cidade. Entendemos que as pessoas precisam de espaços verdes e de lazer de fácil acesso. Além disso, as praças e parques não são distribuídos de maneira equitativa. Tem região político administrativa que não tem nenhum parque”, pontua. 

As discussões que desaguaram nas propostas para a revisão começaram em 2018 por meio de oficinas e reuniões públicas, que a INCITI também fomentou. Foi estabelecida uma comissão especial para avaliar o Plano Diretor. A Câmara de Vereadores convidou pessoas da sociedade civil e entidades para participar. A INCITI foi uma das instituições convocadas. Contudo, para Raquel Meneses, o processo não termina com a formulação, análise e aprovação da revisão. Vai muito além e precisa contar com o acompanhamento da população.

“As pessoas precisam participar do processo de construção. Depois que a lei for implementada, só daqui a 10 anos. O Plano Diretor está em tramitação na Câmara e tudo pode ser acompanhado pelo site. Ainda há espaço para as pessoas se inteirarem do projeto, conversarem e cobrarem de seus vereadores um posicionamento de acordo com os interesses de cada grupo. Que as pessoas participem das atividades, opinem e entendam o que está sendo proposto”, recomenda Raquel.

Após a aprovação, a fiscalização da aplicação do Plano fica a cargo de diversas secretarias a exemplo da Secretaria de Mobilidade e Controle Urbano e Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade.

Parque Capibaribe recebe reforço do Banco Europeu de Investimentos

 Lenne Ferreira

Em um futuro que já vem sendo construído pelo projeto Parque Capibaribe, a população recifense e as águas do rio vão estar mais conectadas. O projeto, que começou a ser implantado em 2017 com a inauguração do Jardim do Baobá, desenvolve um sistema de parques integrados a partir do Rio Capibaribe e acaba de conquistar reconhecimento internacional numa seleção mundial promovida pelo Banco Europeu de Investimentos (BEI). A instituição escolheu cinco ações sustentáveis, entre elas o Parque Capibaribe,  para receber um investimento de 300 mil euros, o equivalente a R$ 1,37 milhão. O recurso deve subsidiar novos itens do projeto. O Parque foi escolhido entre mais de 140 trabalhos do mundo para receber o aporte financeiro que integra o programa Desafio das Cidades para o Clima Global (GCCC) da ONU.

Apresentado pelo prefeito do Recife, Geraldo Júlio, na Conferência da ONU sobre o Clima (COP 25), que aconteceu em Madri, o Parque Capibaribe se destacou por ser considerado uma iniciativa fundamental no enfrentamento aos efeitos das mudanças climáticas. O Recife é a 16ª cidade do ranking mundial de vulnerabilidade aos efeitos das mudanças climáticas segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Apesar de ser um fenômeno de caráter global, em cálculo estimativo do ano de 2012, a cidade emitiu 3,2 milhões de toneladas de carbono, contribuindo assim para o desequilíbrio ambiental. O prefeito defendeu a expansão do parque urbano como um modelo que impacta na mobilidade e na qualidade de vida da população.

O projeto foi escolhido entre mais de 140 projetos. Imagem: Acervo INCITI/UFPE

Secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, Guila Calheiros, comemora a premiação que representa a união de esforços em prol de uma cidade mais sustentável. “Esse reconhecimento foi fundamental pra gente porque mostra o resultado de um trabalho de longo tempo, que foi construído em parceria com o INCITI/UFPE. O Parque Capibaribe não é só um projeto de recuperação das margens do rio, é um projeto sobre reencontro da cidade com o mesmo. Não se concentra apenas em obras, mas em entender o rio, os principais desafios, como retomar a conexão entre suas águas e a cidade por meio da ativação das suas margens”, comenta. Para ele, esse resgate do encontro cidade-rio possibilita a geração de novos espaços para as “pessoas se encontrarem, se verem e se conectarem com a cidade”. O aporte financeiro chega em boa hora. “Estamos na reta final de entrega do Parque Capibaribe. Esse financiamento vai ser fundamental para a realização do projeto de engenharia para a etapa de conclusão”.

As iniciativas escolhidas pelo Desafio das Cidades para o Clima Global (GCCC) estão focadas em projetos que visam a melhoria da gestão de resíduos, a redução da poluição dos rios e dos oceanos, o fomento a um transporte urbano sustentável, esverdeamento de espaços urbanos e o aumento da resiliência urbana aos efeitos das mudanças climáticas. O GCCC faz parte de uma abordagem estratégica geral para ajudar as cidades a viabilizar projetos de ação climática. De acordo com Guila Calheiros, será aberta uma licitação pública para selecionar a empresa de engenharia que vai ficar à frente do desenvolvimento dos projetos financiados pelo recurso do BEI.

O aporte financeiro é de R$ 1,37 milhão. Imagem: Acervo INCITI/UFPE

Circe Monteiro é uma das responsáveis por tornar o projeto Parque Capibaribe uma realidade. Coordenadora de pesquisa e urbanismo da INCITI/UFPE, ela também atua como professora titular do Departamento de Arquitetura da mesma universidade e é uma das que enxerga as reais mudanças que a conexão da população com o Capibaribe pode gerar na cidade. “O Parque Capibaribe é uma concepção bastante sólida de combate aos efeitos climáticos porque apresenta um conjunto de ações. Não é só um projeto que propõe a recuperação da vegetação tropical em volta do rio. Também propõe e dá condições ao desenvolvimento de um processo de  mobilidade ativa com um sistema de ciclovias que vai oferecer uma nova experiência de andar de bicicleta na cidade, em um lugar seguro à beira do rio. Considera ainda soluções inovadoras de drenagem, tratamento de água, a criação de superfícies mais porosas que diminuam a temperatura da cidade”, cita.

Para Circe, entre outros fatores que garantiram uma boa avaliação do Parque Capibaribe na COP 25 estão, principalmente, as redes e intervenções articuladas. “Quando um banco internacional faz uma seleção como essa, ele está em busca de projetos que sirvam de inspiração para outras regiões tanto do Brasil, como do mundo. O Parque Capibaribe propõe intervenções para enfrentar efeitos climáticos no meio urbano focado na regeneração ambiental, ao mesmo tempo que promove amplo sistema de caminhabilidade e articula espaços públicos para atividades de lazer e sociais voltadas à saúde das crianças, mulheres e idosos. É um projeto que vai incentivar a vitalidade social e econômica das áreas vizinhas ao rio.

Circe acredita que a sustentabilidade passa pela participação social. Foto: Rafa Medeiros

A pesquisadora acredita ainda que existem muitos desafios a serem enfrentados na implantação de um projeto sustentável e regenerativo. “Não se consegue uma intervenção sustentável e inovadora repetindo os processos praticados há décadas. Para um projeto ser um exemplo de sustentabilidade, além de uma concepção ambiental e urbanística inovadora, é necessário também repensar uma cadeia de processos: critérios de licitação de obras, modos de execução, origem e impacto de materiais e vegetações, além de procedimentos de gestão, de transparência. O projeto necessita ser acompanhado de uma ampla visão estratégica sem esquecer que não existe sustentabilidade sem a participação da população e mudança nos hábitos de viver a cidade”, conclui. A implantação deste projeto vai permitir um aprendizado muito rico ”, conclui.

Inovar nos procedimentos é necessário para a execução do projeto. Imagem: Acervo INCITI/UFPE

Vai e vem pelo Rio

Uma das estratégias mais eficazes para frear o aquecimento global é adotar medidas que valorizem a preservação, a criação e a manutenção de espaços verdes nas grandes cidades. Nas áreas urbanas, onde há grande concentração de emissão de gases poluentes, a vegetação arbórea possibilita maior qualidade de vida e diminui os efeitos das mudanças climáticas no planeta. O Parque Capibaribe está fundamentado na valorização das margens do rio por meio da criação de jardins públicos, a exemplo do Jardim Baobá, praças e parques, além da conservação de seu ecossistema garantindo mais sustentabilidade dos seus recursos naturais. “Quando falamos do Parque Capibaribe é importante ressaltar que não estamos nos referindo  a um parque às margens do rio, mas de uma articulação urbana transformadora da qualidade ambiental de grande parte da cidade ” pontua Circe Monteiro.

A Via Parque Graças é outro exemplo de intervenção que o Parque Capibaribe propõe para transformar o Recife em um lugar melhor para se viver. Ela vai ocupar um trecho de 950 metros em torno do Rio Capibaribe, entre as pontes da Torre e Capunga, e deve ser concluída até o final de 2020. Outra iniciativa que vai deixar o Recife mais conectado com o rio foi anunciada por Guila Calheiros. Trata-se do Parque Vila Vintém, projeto na Zona Norte do Recife que está sendo coordenado pela equipe da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Recife, que vai interligar o Parque Santana ao Parque da Jaqueira, ao longo das águas do Capibaribe. “É um projeto que envolve diversas secretarias e vai requalificar algumas áreas,  criar ciclofaixas e ciclorotas”, adiantou o secretário, que garantiu que esse trecho será entregue ainda em 2020.

Parque Capibaribe é apresentado em evento da ONU-Habitat

A convite da ONU-Habitat, a INCITI/UFPE participou do Encontro de Pensadores Urbanos de Alagoas, conferência que aconteceu de 16 a 19 de outubro, na Unit – Centro Universitário Tiradentes, na cidade de Maceió, em Alagoas. Durante o encontro, pesquisadores da INCITI/UFPE foram convidados a participar das mesas de debates, de um hackathon e também do grupo que contribuiu na construção do documento-síntese do evento. O evento foi uma iniciativa ONU-Habitat, em parceria com o IAB – AL, a Unit e o Detran – AL.

A participação começou no dia 16/10, no Eixo Mobilidade, com o pesquisador Djair Falcão trazendo o “óbvio” para provocar reflexões sobre a caminhabilidade. Neste mesmo dia, Raquel Meneses e Natan Nigro, também pesquisadores da INCITI, apresentaram as pesquisas que fazem parte do Parque Capibaribe e também levaram as experiências de participação social utilizadas no projeto, como por exemplo o caso da Beira Rio das Graças, que teve no Dia das Crianças um momento marcante de diálogo com a comunidade.

No dia seguinte (17/10), a coordenadora da INCITI, Circe Monteiro, participou do Eixo Direito à Cidade com uma apresentação que tratou sobre a sustentabilidade dos movimentos sociais a partir do Ocupe Estelita. Segundo a arquiteta e urbanista, o principal desafio é de articulação. “Dentro da Prefeitura do Recife tem secretários e técnicos alinhados com movimentos de baixo. Existem pessoas tanto do “top”quanto do “down” que estão alinhadas. A questão é como a gente se articula”, disse. ⠀⠀

Natan Nigro, coordenador de ativação da INCITI/UFPE, também foi convidado para participar do júri que avaliou os grupos que participaram do Hackathon Pinheiro, que aconteceu no dia 19/10 e teve como objetivo promover o desenvolvimento de soluções inovadoras para os bairros do Bebedouro, Mutange e Pinheiro, todos localizados na cidade de Maceió. A atividade aconteceu em parceria com o SEBRAE/AL.

Com a mediação de Evelyn Gomes, que utilizou metodologias do LabHacker, o hackathon contou com a monitoria de Raphael Augusto (IDEAL); Fellipe Malta (ENGAPP); Ryzzan Salman (NTECH); Glauber Xavier (Saudáveis Subversivos); e Fernanda Gusmão (SEPLAG/AL). O corpo de jurados contou com Bruna Augusto (Júnior Achievement); Daphne Besen (Onu-Habitat); Isadora Padilha (IAB-AL); Natan Nigro (INCITI/UFPE); Renan Silva (DETRAN-AL); e Cristina Albuquerque (SOS Pinheiro).

Após 12 horas de atividades e a partir dos critérios – interesse público; criatividade e inovação; implementação e usabilidade; e documentação e replicabilidade, o hackathon escolheu os três projetos que farão parte do programa de incubação do SEBRAE/AL. São eles:

  • Histórias do subsolo:
  • Dados Rápidos Participativos:
  • Rede CoCriar

Segundo Isadora Padilha, coordenadora do Hackathon Pinheiro, os projetos escolhidos terão o apoio do SEBRAE/AL. “Durante três meses os vencedores poderão utilizar a infraestrutura do órgão e terão o apoio técnico na gestão e no desenvolvimento de um negócio social”, explica a organizadora. Segundo ela, outros projetos elaborados no hackathon também podem fazer parte da aceleração. “Além disso, o SOS Pinheiro (grupo de moradores do bairro) se comprometeu a abraçar todos os projetos e o IDEAL irá abraçar o projeto EmpatiCidade”, revela.

[Entrevista] – “O mercado de tecnologia pode ser um lugar para as mulheres negras”

por Lenne Ferreira

A INCITI/UFPE, rede de pesquisadores que desenvolve o projeto Parque Capibaribe, entrevistou Sil Bahia, idealizadora do projeto PretaLab, que fomenta a participação das mulheres negras no campo da tecnologia e inovação.

Nas maiores empresas do país, as mulheres negras estão concentradas nos cargos mais baixos. São as que possuem a maior taxa de desocupação e as mais submetidas à relações precárias e informais de trabalho. Só 10,4%, dessa parcela da população  tem ensino superior completo – em qualquer área. Dados tão alarmantes serviram de base para Silvana Bahia, diretora do Olabi, organização que trabalha pela democratização da tecnologia, que fundou a PretaLab. A iniciativa tem como motivação maior incluir mulheres negras no universo da tecnologia e inovação. Silvana foi indicada pela INCITI/UFPE, que fez parte da curadoria do Rec’nPlay 2019, para compor uma das atividades do festival, que movimentou o bairro do Recife entre os últimos dias 2 e 5 de outubro.

Para comprovar as desigualdades no campo da tecnologia e inovação, a PretaLab, em parceria com a ThoughtWorks, realizou a pesquisa inédita “Quem Coda o Brasil?, que detalhou esse retrato. Entre os dados coletados, um que revela a importância de entender esse cenário:  21% das equipes de tecnologia do País não possuem sequer uma mulher. Em 32,7% dos casos não há nenhuma pessoa negra e em 95% nenhum indígena está empregado. Para tentar reverter esse quadro, a PretaLab lançou uma ferramenta digital que apresenta perfis de profissionais negras a empresas que buscam mão de obra qualificada.

PretaLab. Foto: Safira Moreira/Olabi

Sil, como Silvana é mais conhecida, mora no Rio de Janeiro, e estava entre os nomes da mesa-redonda do Rec’nPlay com o tema Ciência delas: quebrando barreira e fazendo história na tecnologia, mas infelizmente não conseguiu participar do momento por causa da perda de uma pessoa próxima. Integrante do Grupo de Pesquisa em Políticas e Economia da Informação e da Comunicação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Cultura e Territorialidades pela mesma instituição, ela foi a primeira selecionada para o programa Lauttasaari Manor Residency na Finlândia, onde, durante três meses viveu em Helsinque, colaborando com o projeto Anti-Racism Media Activist Alliance (ARMA).

Sil é colaboradora da Afroflix, uma plataforma colaborativa que disponibiliza conteúdos audiovisuais online que prioriza produções assinadas por pessoas negras. A ideializadora do PretaLab também recebeu o prêmio Destaques da Cultura Digital: Inovação Social e Tecnologia, concedido pelo Centro Cultural Banco do Brasil e Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ de 2017.

ENTREVISTA

INCITI:  Ao longo da história, o mercado da tecnologia foi ocupado por um nicho muito seleto e privilegiado composto, majoritariamente, por homens brancos. A população preta, que também produz conhecimento e tecnologias sociais, sempre esteve à margem. Como o Projeto PretaLab tem proposto essa reconfiguração?

Sil Bahia: A PretaLab quer reconfigurar isso a partir do momento que tenta estimular o protagonismo de mulheres negras e homens negros no universo de tecnologia e inovação. Estimular, às vezes, pode parecer algo muito vago, mas em ações significa apoiar as iniciativas dessas mulheres, e contribuir para a visibilidade delas, indicar, fazer trabalhos em conjunto. Queremos que o trabalho delas seja encarado como algo relevante. Sair por aí dizendo que essas mulheres existem. Por isso é tão importante esse trabalho de diálogo com outras setores da sociedade: para dizer que a gente existe, a gente tá aqui e a gente faz diferença onde a gente tá.

INCITI: Em países como os EUA, as mulheres negras representam menos de 1% do total de empregadas na indústria da tecnologia. É possível traçar um panorama sobre a presença das mulheres negras atuando na área de tecnologia hoje no Brasil?

Sil Bahia: Aqui no Brasil não existem pesquisas oficiais que mostrem como se dá a presença negra das mulheres na indústria de tecnologia. A PretaLab lançou uns dados do  “Quem Coda BR”, uma pesquisa recente, que mostra que de fato a presença das mulheres negra é pouca e como a gente faz para que essas mulheres ocupem esse espaço. Pensar que esse mercado não absorve essas mulheres porque ele não chega nelas. E esse mercado também não está pronto para receber a presença delas. A gente escuta vários relatos de pessoas que trabalham na tecnologia e é muito difícil se sentirem bem nesses espaços.

INCITI:  Quais são os elementos sociais estruturais que contribuem para excluir essa parcela da população desse mercado?

Sil Bahia: Racismo e o machismo. Pra mim, não existe problema maior no Brasil do que a questão racial. A gente vê isso se reproduzir na área da tecnologia também porque é o reflexo dessa sociedade desigual. Na verdade, aumenta a desigualdade quando esse campo, que é tão poderoso, que é o campo tecnológico,  é um lugar que tem só pessoas padrão: homem jovem, branco, classe média.

Sil Bahia: Racismo e o machismo. Pra mim, não existe problema maior no Brasil do que a questão racial. A gente vê isso se reproduzir na área da tecnologia também porque é o reflexo dessa sociedade desigual. Na verdade, aumenta a desigualdade quando esse campo, que é tão poderoso, que é o campo tecnológico,  é um lugar que tem só pessoas padrão: homem jovem, branco, classe média.

Silvana Bahia, diretora de projetos do Olabi e coordenadora do PretaLab. Foto: Safira Moreira/Olabi

INCITI: Como os grandes grupos como o Porto Digital podem contribuir para estimular a presença e permanência da população preta, especialmente mulheres negras, no mercada da tecnologia e inovação? Existe alguma referência que possa ser citada como exemplo de sucesso?

Sil Bahia: Um caminho para contribuir, para estimular a presença das pessoas negras nesse mercado, é formar essas pessoas, ajudar essas pessoas a criarem conexões. Também falar para essas empresas que não vai dar para ser como sempre foi. Todo mundo quer ter o selo da diversidade, mas existe uma estrutura para receber essas pessoas? Existe uma política antirracista e antimachista na empresa? Como a gente fomenta essa cultura também? A sociedade é formada em cima desses pilares. Quando você transfere isso para um ambiente de trabalho não é diferente.

O que tem de existir é uma boa vontade, mas não só no sentido social não, mas de querer de fato transformar essas coisas. Fazer com que esses espaços sejam menos hostis. Criar metodologias, ouvir as pessoas para entender porque elas não estão ali. É porque ela não sabia que aquilo existia? Ou porque ela acha que não pode estar ali? Existem muitos caminhos, mas o primeiro é reconhecer que é preciso trabalhar para estimular a presença e permanência das população preta nesses espaços.

INCITI: É possível falar de futuros sem considerar populações historicamente marginalizadas e excluídas do campo da tecnologia para inovação? Como esse campo pode ajudar a diminuir os abismos sociais de um país como o Brasil?

Sil Bahia: É impossível falar de futuro sem considerar as populações historicamente marginalizadas e excluídas. Esse futuro que a gente fala tanto está sendo construído agora, no presente. E essas pessoas precisam estar fazendo esse presente também. A tecnologia tem um papel que pode ser muito transformador no campo social, mas ela também pode acirrar as desigualdades.  Se a gente fosse depender das tecnologias para resolver os problemas sociais, talvez não tivesse mais nenhum, porque tem um monte de tecnologia. Mas a gente vê que as desigualdades não diminuíram. Mas por que não diminuíram? Porque existe um abismo social, de fato, no Brasil e as pessoas que produzem a tecnologia que a gente usa tem um perfil padrão, que é esse homem, branco, do hemisfério norte.

O nosso trabalho é muito de estimular uma experimentação, mas também uma visão crítica sobre a tecnologia. Quando você faz alguma coisa na internet, você está pagando com seu dado. Mas é um debate muito pouco feito. Nosso papel é estimular também uma visão crítica das pessoas em relação ao consumo. Todo mundo hoje consome, mas pouco se pergunta quem produz. E a tecnologia não é neutra e a gente não pode esquecer disso nunca.

INCITI: Você acredita que é possível mulheres negras ocuparem esses espaços?

Sil Bahia: O mercado de tecnologia pode ser um lugar pra gente, um lugar onde a gente pode contribuir e fazer a diferença. Eu tenho muita vontade de que as mulheres enxerguem esse espaço como um lugar real para elas e eu acho que essa é uma mudança que a gente pode fazer na estrutura da pirâmide social. Esse é um dos meus sonhos de vida.

“Ribe do Capibaribe” percorre bibliotecas comunitárias

Por Lenne Ferreira (INCITI/UFPE)

Aproximar as crianças do Rio Capibaribe por meio da leitura e incentivar a consciência ambiental ainda na infância está entre as motivações do Circuito Ribe nas Bibliotecas Comunitárias. A ação, que apresenta a narrativa lúdica como ferramenta metodológica a partir da publicação Ribe do Capibaribe, é mais um produto do projeto Parque Capibaribe, realizado pela INCITI/UFPE em parceria com a Prefeitura do Recife.  Desde agosto passado, a equipe de educadores do projeto iniciou a segunda etapa do circuito, que tem feito a distribuição dos livros e levado oficinas de mediação de leitura para bibliotecas públicas e comunitárias. Confira matéria sobre a primeira etapa aqui.

Os encontros, que duram em média quatro horas, ocorrem com apoio da articulação local dos territórios onde as bibliotecas funcionam. Apesar do público-alvo serem os educadores destes espaços de leitura, as oficinas também contam com a participação dos leitores mirins. Crianças com idades entre cinco e 14 anos participam das atividades que envolvem roda conversa, exibição de filme institucional apresentando o projeto Parque Capibaribe, além de contação de histórias e realização de alguns exercícios lúdicos que compõem a publicação, ilustrada por Allan Chaves. Até agora, já foram contempladas pelo Circuito as comunidades de Peixinhos, em Olinda, Poço da Panela, na Zona Norte, e Ilha do Retiro, Zona Oeste. Todas as unidades receberam exemplares das histórias em quadrinhos.

O Ribe é criação do artista Allan Chaves. Foto: Rafa Medeiros

Os educadores Gabriel Santana e Joelma Tavares são os responsáveis pela condução das oficinas, que têm como objetivo apresentar a proposta pedagógica de leitura do livro como metodologia para aproximar as crianças à temática do meio ambiente a partir da fauna e flora do Rio Capibaribe. “As bibliotecas comunitárias possibilitam o acesso ao livro e à leitura para populações, que, historicamente, não se beneficiam das bibliotecas que estão nas áreas mais centrais. Esse deslocamento é dificultoso para a maioria das famílias e as bibliotecas comunitárias acabam assumindo esse lugar do encontro com o livro e a literatura”, pontua Gabriel. Segundo ele, a aceitação do livro tem sido muito positiva graças a personagens como o Ribe e Tio Biu, esse segundo o queridinho da criançada.  

Tio Biu, o jacaré de papo amarelo, é o queridinho das crianças e está presente em todas as oficinas. Foto: INCITI/UFPE

O roteiro da segunda etapa do circuito iniciou na biblioteca do Nascedouro de Peixinhos, localizada no bairro de Peixinhos, próxima ao Rio Beberibe, em Olinda. O espaço fomenta a prática da leitura entre crianças e adolescentes em uma área socialmente vulnerável. A biblioteca foi criada há 19 anos pelo Movimento Cultural Boca do Lixo, que atua no campo da leitura e do acesso à informação através da implementação de estratégias de mediação e sensibilização. O movimento tem como missão trabalhar com o público infantil a ideia da leitura como um direito humano. 

“Atividades como essa oficina têm tudo a ver com o contexto do local por onde corre o Rio Beberibe, que é muito importante para a cidade e para o bairro, que nasceu dessa relação da população que vivenciava o rio dos “peixinhos”, como era conhecida a área e que deu origem ao nome do bairro”, conta Daniel Pereira, educador da biblioteca. “A proposta de conscientização das novas gerações mostrando a importância de se ter uma relação saudável com o rio e o espaço urbano se relaciona diretamente com a questão da qualidade de vida e construção de uma identidade afetiva das pessoas com os locais onde residem”, completa. 

No Poço da Panela a biblioteca comunitária fica na frente do Rio Capibaribe. É lá onde Aílton Guerra atua como mediador. Foto: INCITI/UFPE

Outra biblioteca que recebeu o projeto fica no Poço da Panela (Recife) e desempenha um trabalho de impacto social. Fundada em 2011 por moradores, a Biblioteca Comunitária do Poço da Panela desenvolve projetos que tem como público-alvo crianças e adolescentes. O espaço promove ações como aulas de música, contação de histórias, brincadeiras populares e de estímulo à criatividade. Também abriga aulas de Yoga para adultos e crianças, inglês, capoeira e oficina de Boi Marinho, além da mediação de leitura e atividades lúdicas diariamente ministradas por Aílton Guerra, estudante de Pedagogia e também baterista da Banda Matalanamão, do Alto José do Pinho.

Arthur Felipe, de nove anos, é uma das crianças que frequentam a biblioteca e que participou de todas as etapas do circuito Ribe. “Eu gostei da atividade porque falaram exatamente da natureza, dos rios e da mata.. Se a gente não cuidar da mata a gente vai estar matando o nosso planeta. Cuidar do nosso planeta é uma forma de agradecer por tudo de maravilhoso que ele tem”, comentou ele. Arthur também reclamou do lixo que flutua no Capibaribe, cujo trecho corre bem pertinho do espaço. 


A Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares foi um dos espaços por onde a INCITI/UFPE já passou. Foto: INCITI/UFPE

O Ribe também já passou pela comunidade Caranguejo Tabaiares, na Ilha do Retiro (Recife). O local, onde vivem mais de quatro mil habitantes e que carrega uma história de mais de 100 anos, tem passado por um processo de desapropriação.  A equipe do projeto promoveu uma tarde de leitura com crianças e mediadores da Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares, que vivem na comunidade e também têm encampado uma campanha pela permanência da ocupação na área. Durante a atividade, os pequenos leitores falaram sobre o mangue que tem perto de suas casas e que inspirou o nome da comunidade, fundada por pescadores. Reginaldo Pereira, coordenador da biblioteca, fundada há 14 anos, diz que o projeto desempenha um papel importante possibilitando o acesso ao livro e ao conhecimento por parte das crianças e moradores.

Por um Capibaribe mais vivo

por Lenne Ferreira/INCITI

O rio das Capivaras é também o lugar onde vivem muitas outras espécies da fauna e flora da Mata Atlântica brasileira. Conservar esse ecossistema é garantir a sustentabilidade dos seus recursos naturais para gerações futuras. É como foco nessa preservação que o projeto paisagístico do Parque Capibaribe, realizado pelo convênio técnico entre o INCITI/UFPE e a Prefeitura do Recife, tem como principal norte a introdução da flora nativa e proteção de espécies cuja população encontra-se em declínio e/ou ameaçada de extinção. Até a conclusão do projeto, 167 espécies vegetais serão introduzidas ao longo das margens do Rio, que ficará ainda mais vivo e atrativo para a avifauna e também para população.

Mesmo com a expansão urbana e consequente impacto no meio ambiente, o Rio Capibaribe conservou redutos ecológicos importantes para inúmeras espécies de animais silvestres. Pensar o plano paisagístico para a consolidação de um sistema de parque em seu entorno, exigiu, primordialmente, um estudo aprofundado sobre a fauna e flora de todo seu percurso, desde a sua nascente até o desague aqui no Recife. Entre as premissas de desenvolvimento do projeto, está a manutenção das características da flora do habitat para garantir que ela continue servindo de abrigo e fonte de alimento para a fauna local. Exatamente por isso, todas as soluções arquitetônicas do Parque Capibaribe tem como foco central reduzir impactos e respeitar a  dinâmica do ambiente natural, priorizando a arborização.

“A partir do entendimento do ambiente e do que se tinha enquanto cobertura vegetal, a gente começou a criar o projeto. Fizemos uma lista de espécies nativas, seguindo os critérios e diretrizes do Plano Urbanístico de Recuperação Ambiental (PURA) do Rio Capibaribe. Um dos objetivos principais foi aproximar a população local da flora nativa e garantir abrigo para a população avifauna”, explica a paisagista Maiara Mota, que atua no INCITI/UFPE.

A manutenção da flora nativa possibilita maior presença da avifauna, gerando mais sustentabilidade e conexão biológica no meio ambiente. (Foto: Silvino Pinto)

Segunda Maiara, as expedições pelo Capibaribe mostraram a incidência maior de plantas exóticas (de outros países), uma dinâmica muito comum no Brasil.  Nesse contexto, a equipe de pesquisadores da INCITI/UFPE pensou estratégias de estimular uma flora diversificada, “dentro de um conjunto de áreas verdes conectadas entre si de forma a proporcionar não apenas alimentação e refúgio, mas também a possibilidade de deslocamento de forma segura”, afirma.

Em termos qualitativos e quantitativos, os estudos mostraram que a diversidade de espécies da flora no Capibaribe não se compara ao comportamento de outros ecossistemas de Mata Atlântica, mas tem sua importância para a manutenção de uma condição ambiental mínima para a fauna nativa. O manguezal do Capibaribe, por exemplo, está presente desde a foz, no bairro de Santo Antônio, até a Várzea e sofre influência direta da movimentação das marés, funcionando como um berçário para populações abundantes de fauna e flora, que encontram condições favoráveis à sua reprodução. A conservação da vegetação nativa torna o ambiente autossustentável e independente.

Possibilitar maior aproximação das pessoas com as riquezas naturais do Capibaribe é um dos principais objetivos do Plano Paisagístico do Parque Capibaribe. (Foto: INCITI/UFPE)

No tocante à diversidade, o projeto Paisagístico do Parque está bem ancorado por uma pesquisa que concentra uma lista de espécies nativas de árvores, arbustos e herbáceas. Até a conclusão do projeto, a vegetação será incrementada com exemplares extintos como o Pau Brasil e a Ingá Caixão. Também está prevista a introdução de espécies exuberantes como a Sapucainha. “Nosso principal objetivo foi desenvolver um projeto paisagístico que vá além do embelezamento. O legado do Parque vai além da questão ecológica. Estamos propondo para as próximas gerações uma aproximação com a vegetação nativa do nosso país e a perpetuação desse ambiente”, pontua Maiara, e conclui:

“É mais saúde e vida para o Capibaribe e para as gerações futuras”.

Criança e Natureza: “A horta nos tirou da internet e fez a gente botar a mão na terra”

por Rodrigo Édipo

A relação das crianças com o entorno natural auxilia o seu desenvolvimento em diversos aspectos – intelectual, social, emocional, espiritual e físico. Contudo, a vida nas cidades contemporâneas tem distanciado os pequenos da natureza. Com o objetivo de destacar iniciativas locais de diferentes áreas que já atuam em projetos que resgatam esse contato, o programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, em parceria com a INCITIPesquisa e Inovação para as Cidades, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), realizou o Encontro Criança e Natureza – Recife, dia 11 de maio de 2019, no Jardim do Baobá, espaço público localizado na margem do rio Capibaribe.

O evento, que teve apoio da Prefeitura do Recife e do projeto Lindeza, proporcionou momentos de interação entre crianças e adultos, com atividades de brincar livre na natureza e rodas de conversa com pessoas de diferentes vivências para trocas de experiências sobre os benefícios do contato com a natureza e os espaços urbanos para o desenvolvimento pleno e integral na infância. O encontro também contou com atividades do Ribe e os Aventureiros do Capibaribe, publicação e ferramenta metodológica desenvolvida pela INCITI/UFPE em parceria com a Prefeitura do Recife. 

Pela primeira vez no Recife, o evento também já aconteceu em cidades como Florianópolis, Natal, Brasília e Goiânia. “A ideia dos encontros regionais é ampliar o tema nas diferentes regiões do Brasil. A gente fomenta a criação de redes locais de ações e iniciativas que já trabalham com o tema e favorecem essa conexão da criança com a natureza. O interessante dos encontros é que essas ações, que podem ser desenvolvidas por diferentes setores da sociedade, muitas vezes não são vistas como parte de um mesmo movimento”, explica Paula Mendonça, assessora pedagógica do programa Criança e Natureza. A educadora também é uma das diretoras do documentário Waapa, que é fruto de uma pesquisa sobre a infância, a vida comunitária e espiritual no Parque Indígena do Xingu.

Circe Monteiro (à esq.) e Paula Mendonça realizaram as falas de abertura. Foto: Natália Regina/Paulo Vilela

A Profa. Circe Gama Monteiro, coordenadora da INCITI/UFPE, alertou para a responsabilidade de olharmos as crianças com mais dignidade. “É necessário levarmos a sério o desenvolvimento emocional, afetivo, espiritual das crianças para que revelem dentro de si os seres humanos que são, com todo os potenciais desabrochados e desenvolvidos. E sabemos que a relação com a natureza é um dos aspectos mais importantes disso”, pontua. 

Gandhy Piorski. Foto: Natália Regina/Paulo Vilela

Durante o encontro, a importância do brincar livre como prática primordial na primeira infância foi reconhecida e, através da fala inspiradora do artista plástico e educador, Gandhy Piorski, foi pautada a necessidade de abrirmos caminhos para que o mundo imaginário das crianças aflore. “A forma de dialogar brincando com o mundo só pode acontecer porque a criança imagina. É uma faculdade de encantamento”, relata.  A palestra do educador encantou o público presente, que teve a oportunidade de conhecer melhor as ideias que envolvem a pesquisa que desenvolve sobre a cultura da infância. Gandhy Piorski lançou em 2016 o livro Brinquedos do Chão (editora Peirópolis), que investiga as diversas representações do brincar e do brinquedo.

Nas rodas de conversa, mediadas pelo pedagogo Gabriel Santana (INCITI) e o engenheiro ambiental Djair Falcão (INCITI), estiveram presentes a representante do Fórum em Defesa da Educação Infantil em Pernambuco, Célia Santos, o professor Hildemarcos Florêncio, da Escola Humberto Castello Branco; a Mestra em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco, Ana Carolina Perrusi; a Gerente de Projetos Especiais da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Recife, Adryana Rozendo; o Diretor Executivo de Gestão Pedagógica da Prefeitura do Recife, Rogério Morais; a professora de direito ambiental e direitos humanos, abian (filha de santo) do Ilê Axé Oxalá Talabí, Ciane Alves; além da participação do Coletivo Massapê e do estudante e morador da comunidade de Vila Santa Luzia, Geovane dos Santos Ribeiro.

PARA ALÉM DOS MUROS

Geovane falou sobre experiência em horta comunitária. Foto: Natália Regina/Paulo Vilela

O encontro provocou reflexões sobre a possibilidade das escolas extrapolarem os próprios muros e promoverem experiências nas comunidades e “naturezas próximas”, incentivando o protagonismo de alunos e alunas em experiências pedagógicas que interagem com o território. Assim, foram apresentados exemplos como hortas em canteiros, que de maneira simples, proporcionam experiências afetivas e facilitam o vínculo das crianças com o ambiente que as cerca, desencadeando assim um senso de cuidado e respeito à natureza.

Capivaras de papelão fizeram sucesso entre as crianças. Foto: Natália Regina/Paulo Vilela

Como é o caso de Geovane dos Santos, 12 anos, morador da Vila Santa Luzia, comunidade da Zona Norte do Recife, que cooperou de forma voluntária na estruturação de uma horta comunitária no bairro onde mora e assumiu responsabilidades de gestão que, no senso comum, seriam destinadas para uma pessoa com mais idade. “A participação na estruturação da horta ajudou a gente a aprender o que é veneno para as plantas. A horta tirou a gente da internet e fez a gente botar a mão na terra, ter noção de coletividade e aprender junto sobre o território”, relata o jovem.

Diretor pedagógico da Escola Humberto Castello Branco (Recife), o Prof. Hildemarcos Florêncio promove ações com estudantes na Mata do Engenho Uchôa, Área de Proteção Ambiental (APA) de 192 ha, localizada na Zona Oeste do Recife. “Estamos por quase duas décadas realizando projetos ambientais com estudantes e conseguimos levar a zero uma evasão escolar que antes era de 55%”, contextualiza o professor, que também participa de movimentos sociais em prol do meio ambiente.

Ciane Alves, pesquisadora em direito ambiental e abian (filha de santo), trouxe a experiência educativa de 30 anos na comunidade tradicional onde vive. “O Ilê Axé Oxalá Talabí trabalha com educação há 30 anos e se constitui como escola de ensino fundamental devido à formação da matriarca do terreiro, e isso começou a ser feito porque a escola tradicional, além de ter o preconceito, não dá conta do aprendizado da comunidade religiosa”, explica.

Para a Prof. Ana Carolina Perrusi, do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), existe uma importância estratégica e urgente em estimular a relação entre a criança e a cidade. “É uma chance de reverter o caos em que a cidade se transformou. Minha proposta é que se promovam mais discussões como essa, formando redes locais que tragam o assunto na pauta”, indica.

O gestor público Rogério Morais aposta em um formato que una vários setores. Foto: Natália Regina/Paulo Vilala

Rogério Morais, Diretor de Gestão Pedagógica da Prefeitura do Recife, enxerga que o desafio é  intersetorial. “É preciso articular diversos atores para que tenhamos atenção ao que as crianças nos têm a dizer, para entender de fato as suas reais necessidades”, ressalta. Para a arquiteta Adryana Rozendo, gerente de Projetos Especiais da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Recife, a questão também é de fomentar o pertencimento. “É preciso estimular que as crianças se percebam enquanto cidadãs e agentes de transformação ativa das cidade”, defende.

O encontro contou também com a apresentação musical do grupo “Pirão Bateu da Xambá”, formado por pré-adolescentes membros da comunidade quilombola afro-brasileira Nação Xambá. O trabalho artístico é resultado das ações sociais realizadas pelo Grupo Bongar, no Centro Cultural Grupo Bongar, na comunidade Xambá.

ENCAMINHAMENTOS SUGERIDOS

1) Cobrar a execução de um Plano Municipal pela Primeira Infância (PMPI) na cidade do Recife;
2) Revisão do Plano Diretor do Recife tendo em vista a implementação de instrumentos que tenham incidência na vivência das crianças;
3) Avaliar a possibilidade de formação de uma rede de articulação Criança e Natureza em Recife.

Plano Urbanístico Ambiental é mais um legado do Parque Capibaribe

por Lenne Ferreira

“Sustentabilidade é um processo através do qual as comunidades presentes e futuras florescem harmoniosamente”. A premissa extraída da Rede de Desenvolvimento Urbano Sustentável da América Latina e Caribe – REDEUS-LAC serviu de base para a construção do PURA – Plano Urbanístico de Recuperação Ambiental do Rio Capibaribe. O documento desenvolvido pela equipe transdisciplinar da INCITI/UFPE e que se encontra em fase de formatação para divulgação, apresenta a síntese dos produtos resultantes do convênio técnico entre a Universidade Federal de Pernambuco e a Prefeitura do Recife para a implantação do projeto Parque Capibaribe. As diretrizes para a construção de um sistema de parques integrados em torno do Capibaribe também fazem parte desse compilado que apresenta uma diversidade de conhecimentos que visa incitar, junto a diversos setores da sociedade, novos conhecimentos capazes de transformar a relação do recifense com a cidade.

Pesquisa com crianças no Jardim do Baobá. Foto: Rodrigo Édipo

O PURA foi formulado pelo corpo de pesquisadores da INCITI/UFPE com base em um estudo aprofundado dos aspectos urbanos e ambientais da bacia hidrográfica. Engenheiros, arquitetos, biólogos, urbanistas, jornalistas, economistas e ainda profissionais de áreas como Serviço Social, Pedagogia, Psicologia e Direito participaram da construção do documento, que poderá servir de referência para gestões futuras. Inicialmente, a equipe de pesquisadores da INCITI buscou entender o território e como a cidade se comporta ao longo do Rio Capibaribe, tanto o ambiente construído quanto o natural. Foram realizadas várias pesquisas, experimentações e conversas com as pessoas que moram e andam nessas áreas para poder entender as diversas camadas que compõem o tecido urbano e ambiental. “A partir desse estudo de campo, foram traçadas diretrizes que ajudaram a nortear os produtos do Parque Capibaribe, mas também vão servir para apoiar quaisquer projetos que sejam pensados na área”, explica a arquiteta e urbanista Raquel Meneses, coordenadora de projetos do Parque.

“O papel do arquiteto e urbanista é mais de facilitador do que de projetista. Transformar em projeto o que as pessoas que vivem no lugar precisam” (Raquel Meneses)

As pesquisas de desenvolvimento do projeto Parque, iniciado em 2014, foram utilizadas para a construção do PURA, que se baseia nos dados e nas informações colhidas em excursões, capacitações, estudos sobre fauna, flora e vitalidade do rio,  identificação das áreas com maior densidade, ativações e ações educativas. Um processo que em sua natureza metodológica quebra paradigmas em relação aos planos urbanos tradicionais, ao retirar a ênfase no produto final e focando no processo como produto. A partir de um olhar de baixo para cima, baseado nas premissas do Urbanismo Emergente, foi possível melhor identificar soluções que tinham como sustentação as potencialidades dos grupos envolvidos no território. Como foi o caso do Workshop Internacional de Prototipagem Urbana (WIPU), que envolveu pesquisadores locais e internacionais, instituições de ensino, órgão dos poderes público e privado, comerciantes informais e estudantes no desenvolvimento de um desenho urbano que experimentasse soluções a médio e curto prazo para diversos dilemas espaciais e sociais.

“…para atuar na cidade de forma bem-sucedida, entendemos que não é mais possível conceber um grande projeto fechado a ser implementado ao longo do tempo baseado somente na concepção dos planejadores. Já sabemos, por diversas experiências passadas, que muitos projetos ambiciosos fracassam por engessarem as condições de mudanças, por não responderem às demandas dinâmicas da cidade e da sociedade” (Trecho retirado do PURA).

Vanessa Reis, arquiteta e urbanista, mestra em Desenvolvimento Urbano pela UFPE, que também atua no INCITI, realizou algumas expedições para fazer a leitura da paisagem construída na perspectiva de retomar o Capibaribe como protagonista da estruturação paisagística urbana. “O Rio Capibaribe foi um elemento estruturador desde o início da ocupação do Recife, que é uma cidade aquacêntrica (centrada nas águas) e nos valores das águas. Com o advento do carro e da ocupação territorial, as águas foram esquecidas como alternativa para mobilidade. O Parque Capibaribe partiu da necessidade de se olhar para este rio como desenvolvedor do espaço construído da cidade e da relação das pessoas com ele e o PURA contém o registro de todo esse processo”, observa Vanessa.

O Plano tem como diretrizes prioritárias a ampliação da oferta dos espaços verdes públicos, recuperação e fortalecimento do corredor ecológico do Rio Capibaribe, a criação dos corredores ambientais conectando os espaços verdes, ampliando a diversidade e promovendo a abundância de espécies nativas. Ao todo, 30 quilômetros (15 de cada margem do rio) foram observados para a construção de uma estratégia de trabalho que apresentasse um olhar mais delicado para a fauna e a flora, além do compromisso em realizar – através de workshops, pesquisas e consultas públicas – processos colaborativos para a consolidação de um projeto que tem impacto na vida de quem vive a/na cidade.

Raquel Meneses, coordenadora de projeto do Parque Capibaribe. Foto: INCITI/UFPE

“As pessoas foram importantes em várias camadas desse processo. Uma fonte ímpar para conhecer cada lugar. Para entender os lugares, só ouvindo as pessoas que vivem lá. São elas que sabem e são elas que vão usar. O papel do arquiteto e urbanista é mais de facilitador do que de projetista. Transformar em projeto no que as pessoas que vivem naquele lugar precisam. Pesquisa, experimentos e observação são formas de absorver esse conhecimento que elas já tem”, pontua a urbanista Raquel Meneses. Outra participação importante da população diz respeito à vigilância da aplicação das diretrizes do PURA. Só conhecendo a cidade é possível cobrar melhorias para a infraestrutura sem desrespeitar o meio ambiente. Apesar de ser um documento técnico, quando concluído, o PURA ficará disponível para consulta pública.

Jardim do Baobá recebe Encontro Criança e Natureza, dia 11 de maio

Evento acontece pela primeira vez em Pernambuco e visa compartilhar experiências que favoreçam a relação das crianças com a natureza e o meio urbano

O contato direto das crianças com o ambiente natural contribui para o seu desenvolvimento social, intelectual, emocional, espiritual e físico. Entretanto, a vida nas cidades tem afastado as crianças da natureza. Com o objetivo de destacar iniciativas locais de diferentes áreas que já atuam em projetos que resgatam essa relação, o programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, em parceria com a INCITI – Pesquisa e Inovação para as Cidades, rede de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), realizam o “Encontro Criança e Natureza”, dia 11 de maio (sábado), das 13h às 19h, no Jardim do Baobá, marco inicial do projeto Parque Capibaribe, em Recife. As inscrições já estão abertas e são gratuitas. O evento tem apoio da Prefeitura do Recife e do Projeto Lindeza.

O “Encontro Criança e Natureza – Recife” proporcionará momentos de interação entre crianças e suas famílias, com vivências de brincar livre na natureza, promovidas pelo Projeto Lindeza e atividades do Ribe e Os Aventureiros do Capibaribe, com o autor Allan Chaves, além de um piquenique colaborativo no jardim, em que o público será incentivado a levar lanches para compartilhar. A proposta do encontro é reunir diferentes grupos, como representantes de instituições governamentais, acadêmicas, de associações civis, escolas, movimentos sociais agentes de saúde, a fim de sensibilizar e catalisar novas oportunidades para a construção de uma cidade mais humana e amiga das crianças.

“Os encontros regionais têm como objetivo trazer a dimensão intersetorial do tema criança e natureza, além de mapear, integrar e proporcionar a troca de experiência de diferentes regiões, com seus saberes e práticas específicas. Em Recife não vai ser diferente: o encontro deseja estimular o olhar, provocar reflexões e troca de conhecimentos. Desejamos acolher, compartilhar e multiplicar iniciativas locais, de forma que os benefícios da ocupação dos espaços públicos, da cidade como um todo sejam positivos para todo mundo”, explica Laís Fleury, coordenadora do Criança e Natureza.

Allan Chaves, criador do Ribe do Capibaribe, realizará atividades com crianças. Foto: Rafa Medeiros

Circe Gama Monteiro, coordenadora da INCITI/UFPE, chama atenção para a questão do desemparedamento da infância, desafio contemporâneo que tem afastado as crianças do espaço público e do contato com a natureza. “Como irão sonhar a cidade que irão criar e o mundo que irão habitar? Nossas crianças precisam ser crianças, precisam brincar livres, descobrir e desobedecer as limitações que lhe são impostas. Este evento promete trazer pessoas para reaprenderem como respeitar a natureza das crianças”, pontua.

O educador e artista plástico, Gandhy Piorski, é um dos convidados do encontro. Foto: Tathyana Genova

Rodas de conversa: Além das vivências na natureza com crianças, jovens e adultos, a programação do “Encontro Criança e Natureza – Recife” contará com a participação do educador e artista plástico, Gandhy Piorski, que abrirá o evento com uma fala inspiradora sobre a relação da criança com o ambiente a sua volta. A programação continuará com duas rodas de conversa, formada por pessoas de diversas áreas de vivência, que trarão olhares para o tema do evento a partir dos seguintes eixos: urbanismo, educação, cultura e saúde.

Para a participação nas rodas, a organização do encontro já confirmou as presenças de Célia Santos, representante do Fórum em Defesa da Educação Infantil em Pernambuco; do professor Hildemarcos Florêncio, da Escola Humberto Castello Branco; da Mestra em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco, Ana Carolina Perrusi; do Secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Recife, Guilherme Calheiros; do Diretor Executivo de Gestão Pedagógica da Prefeitura do Recife, Rogério Morais; além da participação do Coletivo Massapê e do estudante e morador da comunidade de Vila Santa Luzia, Geovane dos Santos Ribeiro.

Sobre o Instituto Alana

O Instituto Alana é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, que aposta em programas que buscam a garantia de condições para a vivência plena da infância. Criado em 1994, é mantido pelos rendimentos de um fundo patrimonial desde 2013. Tem como missão “honrar a criança”.

Serviço:
Quando: Sábado, 11 de maio de 2019
Horário: Das 13h às 19h
Onde: Jardim do Baobá, que fica na R. Madre Loyola, Jaqueira, Recife – PE
Inscrições gratuitas: http://bit.ly/cenrecife
Informações: info@inciti.org | 3037-6689

Programação

A partir das 13h
Acolhimento com mesão de frutas

14h às 18h
Atividades de Brincar Livre com Projeto Lindeza + Ribe e Os Aventureiros do Capibaribe

15h às 16h30

Roda de conversa: Cidade e Natureza: Como promover territórios de brincadeira e aprendizagem?

  • Hildemarcos Florêncio (Projeto pedagógico Escola Humberto Castello Branco)
  • Célia Santos (Fórum em defesa da educação infantil de Recife e Pernambuco)
  • Rogério Morais (Diretor Executivo de Gestão Pedagógica da Prefeitura do Recife)

16h45 às 18h15

Roda de conversa: Como tornar a cidade viva para as crianças?

  • Adryana Rozendo (Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Recife)
  • Ana Carolina Perrusi (Centro de Educação UFPE)
  • Lucas Izidoro (Coletivo Massapê)
  • Geovane dos Santos Ribeiro (estudante e morador da Vila Santa Luzia)

18h15 às 19h

Encerramento

Provocações debateu repressão ao passinho e outros movimentos de rua

Por Rodrigo Édipo

Em maio de 2017 foi aprovada a proposta de lei que inclui o brega como uma das expressões artísticas genuinamente pernambucanas. A Lei nº 16.044/2017 assegura a manifestação como bem cultural do estado. Ao mesmo tempo que os ventos começam a soprar à favor, casos de repressão policial contra jovens que dançam passinho, uma das vertentes do brega, nos espaços públicos da Região Metropolitana do Recife (RMR), crescem de forma exponencial. Em resposta a isso, a INCITI/UFPE, grupo de pesquisa que desenvolve o projeto Parque Capibaribe, promoveu mais uma edição do Provocações Urbanas, desta vez com o tema Como conviver sem reprimir? Cultura de rua, juventude e direitos, realizada no dia 31 de janeiro, na sede da INCITI, no Bairro do Recife.

O encontro reuniu pessoas de diferentes realidades. Foto: Suzana Souza

A plateia, de cerca de 90 pessoas, entre estudantes, representantes dos setores de pesquisa, gestão governamental, movimentos sociais e iniciativas culturais de rua, puderam conversar abertamente sobre a ocupação dos espaços públicos pelos jovens e as diversas tensões que envolvem essa prática, como a gestão dos parques públicos, as manifestações artísticas da periferia, o racismo ambiental, a segurança, a repressão policial e algumas possíveis soluções e encaminhamentos para os problemas levantados.

Para o encontro, mediado pela jornalista e pesquisadora da INCITI, Lenne Ferreira, foram convidados a pesquisadora da INCITI, Raquel Meneses, arquiteta e urbanista que atua principalmente nos temas relacionados à gestão de parques públicos; o secretário de Segurança Urbana da cidade do Recife, Murilo Cavalcanti; Maria Helena e Adelaide, articuladoras do Recital Boca no Trombone, projeto de ocupação artística com música e poesia em Água Fria; Juliane Lima, advogada e mestranda em Desenvolvimento Urbano pela UFPE; Cláudio Borba, Delegado Especial da Polícia Civil de Pernambuco; e Jaqueline Castro, produtora de grupos de passinho.

Jaqueline Castro defende que o bregafunk é resistência comunitária. Foto: Suzana Souza

Dança contemporânea e de rua que compõe o movimento bregafunk, o fenômeno do passinho revela um entrelace de impulsos estéticos, sociais e econômicos que precisa ser compreendido com mais cuidado. Principalmente por se tratarem de jovens que em sua maioria vivem contextos limites em suas comunidades. “Converso muito com eles sobre o comportamento em casa, para não se envolverem em coisas que não têm futuro. O bregafunk é cultura da comunidade, vai muito além, está ganhando o país, é resistência”, contextualizou Jaqueline Castro, produtora do grupo As Cacique do Passinho.

Sem muitas oportunidades de lazer, os jovens têm promovido encontros em áreas centrais e públicas do Recife, como o Parque 13 de Maio e o Marco Zero, o que tem trazido uma certa sensação de insegurança aos que não participam do movimento. A pesquisadora da INCITI/UFPE, Raquel Meneses, sinalizou que precisamos de mais empatia. “Os espaços públicos não são tratados de uma forma convidativa para as pessoas, possibilitando que aprendam a entender as expressões dos outros. Como vai entender o diferente se você vive em uma bolha? É preciso estimular um olhar mais carinhoso e cuidadoso com o outro”, sugeriu.

O secretário de segurança urbana do Recife, Murilo Cavalcanti, chamou atenção para a segregação social e a relação com a violência. “Vivemos em uma cidade partida, de um lado os ricos, do outro a camada pobre. As pessoas dizem que as comunidades são lugares violentos, na verdade elas são violentadas em seus direitos, não têm um parque, uma praça, uma biblioteca”, explica. À frente do Centro Comunitário da Paz – COMPAZ, Murilo comparou o movimento do passinho com os rolezinhos, que ficaram conhecidos principalmente por “invadirem” Shopping Centers. “Os rolezinhos foram tratados como caso de polícia, a gente buscou diálogo com os meninos que estavam organizando esses encontros. É isso que precisa ser feito nos grandes centros urbanos, a gente quer uma cidade para todos”, defendeu.

Adelaide, articuladora do Recital Boca no Trombone, contextualizou o problema a partir do olhar de uma moradora de comunidade periférica. “Enquanto negra e favelada eu convivo com essa repressão todo dia, os meninos todos os dias de manhã já tão lançando passinho lá com o som nas alturas. É a batalha do passinho que anima a favela. E o estado só olha pragente quando é pra abordar”.

Cláudio Borba falou sobre projetos sociais da polícia. Foto: Suzana Souza

“Uma preocupação grande da atual administração é mostrar que a polícia não é só repressão, e sim prevenção e cidadania. Montamos um programa com o trabalho da polícia, chamado Comunidade Segura, ministrando palestras nas escolas estaduais. É um projeto pra tentar desmistificar e fazer as pessoas acreditarem mais na polícia”, disse o delegado Cláudio Borba, citando iniciativa promovida pela Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS).

A advogada Juliane Lima alertou para a necessidade de termos políticas públicas que atendam a população negra e problematiza a ocupação das ruas. “Temos inúmeros racismos: religioso, ambiental, institucional, recreativo. Como a elite se apropria do espaço público, né? Mas ao mesmo tempo ela nega, porque a rua é lugar de prostituta, de ladrão. Mas ao mesmo tempo que a rua não presta, a rua é da elite”, provocou.

A Polícia dança?

O debate contou coma facilitação gráfica da artista gráfica Camila Wanderley. Foto: Suzana Souza

O modus operandi da Polícia Militar foi questionado pela maioria do público presente. “O que tá sendo feito pra alimentar a alma dos policiais, será que eles dançam? Será que eles são treinados pra serem rígidos? Será que não deveríamos fazer os policiais dançarem?”, convida para reflexão Djair Falcão, pesquisador da INCITI/UFPE. Segundo Juliane Lima, o espaço público também reprime a polícia. “Eu acho que os policiais dançam, a questão é onde eles dançam. Eles são tão reprimidos no espaço público, eles terminam não alimentando isso”, concluiu.

Para MC Negrita, a questão é de representatividade. “É uma polícia que pode fazer ação, pode dançar, fazer quadradinho, é uma galera que não vai me representar.  Me dói ver meu povo fazendo ações, chamando a galera do tráfico para o rap, e a polícia faz parar porque tamo falando a verdade, e a verdade dói”. A poeta Bione segue a mesma linha. “Não temos acesso à educação e lazer, quando criamos o nosso lazer somos totalmente reprimidos. Como faz pra acreditar na polícia se ela reprime, oprime e mata a gente?”.

Morador da comunidade do Bode, em Brasília Teimosa, o artista visual Stilo Santos chama atenção para a disparidade entre discurso e prática dos projetos sociais da polícia. “Acontece que de manhã quem vem dar a palestra é o major, um cara desconstruído, que quer trocar uma ideia, mas de noite quem tá na minha porta é o GATI, o Grupo de Apoio Tático Itinerante, a Rocam, o GTO (Grupo Tático Operacional). Os projetos sociais são feitos por pessoas do alto escalão que se dizem agentes dos direitos humanos, enquanto as especializadas estão matando e batendo  na periferia e na juventude negra”.

A conversa também permeou a questão da política das drogas. “A polícia foi treinada por muito tempo pra lutar contra as drogas, sendo que a guerra às drogas está perdida. Tem que levar essa discussão adiante, amanhã mesmo vou ligar pra Antônio de Pádua (Secretário de Defesa Social de Pernambuco), é preciso compreender isso. O menino que fuma maconha na favela é um delinquente, o da classe média é cabeça?”, provocou Murilo Cavalcanti.

A advogada popular Thaisi Bauer chamou atenção para a abordagem racista e seletiva dos policiais e propôs encaminhamentos após o debate. “O meu primeiro encaminhamento seria de fortalecimento do GT racismo dentro da polícia para que houvesse formação desses policiais em relação ao racismo institucional que tem sido perpetrado reiteradamente”. Como segundo encaminhamento, a advogada sugeriu que o Conselho de Segurança Pública fosse ocupado pelas pessoas da sociedade civil e que tivesse o caráter deliberativo e consultivo. Thaisi ainda fez uma terceira proposta. “Sugiro que a corregedoria seja desvinculada da polícia, pois precisamos de autonomia para que essas abordagens e esses crimes sejam investigados por alguém que seja autônomo”, concluiu.

Teve apresentação de passinho no térreo da INCITI/UFPE. Foto: Instagram/Divulgação

Ao final o público presente teve o privilégio de assistir à apresentação do grupo As Cacique do Passinho, que encerrou com boas energias um encontro marcado pela tensão e exposição de muitas feridas, mas que representou um raro momento de aproximação entre população, grupos culturais, pesquisadores e gestores, apontando assim para a necessidade de uma maior promoção de espaços que fomentem diálogos e danças sobre temas de interesse público. 

Encaminhamentos

1) Transparência nos dados dos crimes violentos letais intencionais, com descrição de raça, idade, gênero, nome, lugar da morte;
2) Participação da sociedade civil no Conselho Estadual de Segurança Pública do Estado de Pernambuco, o qual deve ser paritário, consultivo e deliberativo;
3) Maior autonomia para as Corregedorias de Polícia;
4) Realização de audiências descentralizadas na periferias para escuta da população;
5) Participação da sociedade civil nas reuniões do Pacto pela vida.

Repercussão

O debate “Como conviver sem criminalizar” também repercutiu nos veículos de comunicação locais. A Marco Zero Conteúdo aprofundou a discussão com uma matéria que contou com a colaboração do Inciti que aborda os casos de violência policial nas abordagens durante encontros de passinho. A matéria também conta a história do jovem que perdeu a visão de um dos olhos numa dessas ações. O caso foi denunciado durante o debate no INCITI. Confira a matéria completa

Confira áudio do debate na íntegra