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Provocações debateu repressão ao passinho e outros movimentos de rua

Por Rodrigo Édipo

Em maio de 2017 foi aprovada a proposta de lei que inclui o brega como uma das expressões artísticas genuinamente pernambucanas. A Lei nº 16.044/2017 assegura a manifestação como bem cultural do estado. Ao mesmo tempo que os ventos começam a soprar à favor, casos de repressão policial contra jovens que dançam passinho, uma das vertentes do brega, nos espaços públicos da Região Metropolitana do Recife (RMR), crescem de forma exponencial. Em resposta a isso, a INCITI/UFPE, grupo de pesquisa que desenvolve o projeto Parque Capibaribe, promoveu mais uma edição do Provocações Urbanas, desta vez com o tema Como conviver sem reprimir? Cultura de rua, juventude e direitos, realizada no dia 31 de janeiro, na sede da INCITI, no Bairro do Recife.

O encontro reuniu pessoas de diferentes realidades. Foto: Suzana Souza

A plateia, de cerca de 90 pessoas, entre estudantes, representantes dos setores de pesquisa, gestão governamental, movimentos sociais e iniciativas culturais de rua, puderam conversar abertamente sobre a ocupação dos espaços públicos pelos jovens e as diversas tensões que envolvem essa prática, como a gestão dos parques públicos, as manifestações artísticas da periferia, o racismo ambiental, a segurança, a repressão policial e algumas possíveis soluções e encaminhamentos para os problemas levantados.

Para o encontro, mediado pela jornalista e pesquisadora da INCITI, Lenne Ferreira, foram convidados a pesquisadora da INCITI, Raquel Meneses, arquiteta e urbanista que atua principalmente nos temas relacionados à gestão de parques públicos; o secretário de Segurança Urbana da cidade do Recife, Murilo Cavalcanti; Maria Helena e Adelaide, articuladoras do Recital Boca no Trombone, projeto de ocupação artística com música e poesia em Água Fria; Juliane Lima, advogada e mestranda em Desenvolvimento Urbano pela UFPE; Cláudio Borba, Delegado Especial da Polícia Civil de Pernambuco; e Jaqueline Castro, produtora de grupos de passinho.

Jaqueline Castro defende que o bregafunk é resistência comunitária. Foto: Suzana Souza

Dança contemporânea e de rua que compõe o movimento bregafunk, o fenômeno do passinho revela um entrelace de impulsos estéticos, sociais e econômicos que precisa ser compreendido com mais cuidado. Principalmente por se tratarem de jovens que em sua maioria vivem contextos limites em suas comunidades. “Converso muito com eles sobre o comportamento em casa, para não se envolverem em coisas que não têm futuro. O bregafunk é cultura da comunidade, vai muito além, está ganhando o país, é resistência”, contextualizou Jaqueline Castro, produtora do grupo As Cacique do Passinho.

Sem muitas oportunidades de lazer, os jovens têm promovido encontros em áreas centrais e públicas do Recife, como o Parque 13 de Maio e o Marco Zero, o que tem trazido uma certa sensação de insegurança aos que não participam do movimento. A pesquisadora da INCITI/UFPE, Raquel Meneses, sinalizou que precisamos de mais empatia. “Os espaços públicos não são tratados de uma forma convidativa para as pessoas, possibilitando que aprendam a entender as expressões dos outros. Como vai entender o diferente se você vive em uma bolha? É preciso estimular um olhar mais carinhoso e cuidadoso com o outro”, sugeriu.

O secretário de segurança urbana do Recife, Murilo Cavalcanti, chamou atenção para a segregação social e a relação com a violência. “Vivemos em uma cidade partida, de um lado os ricos, do outro a camada pobre. As pessoas dizem que as comunidades são lugares violentos, na verdade elas são violentadas em seus direitos, não têm um parque, uma praça, uma biblioteca”, explica. À frente do Centro Comunitário da Paz – COMPAZ, Murilo comparou o movimento do passinho com os rolezinhos, que ficaram conhecidos principalmente por “invadirem” Shopping Centers. “Os rolezinhos foram tratados como caso de polícia, a gente buscou diálogo com os meninos que estavam organizando esses encontros. É isso que precisa ser feito nos grandes centros urbanos, a gente quer uma cidade para todos”, defendeu.

Adelaide, articuladora do Recital Boca no Trombone, contextualizou o problema a partir do olhar de uma moradora de comunidade periférica. “Enquanto negra e favelada eu convivo com essa repressão todo dia, os meninos todos os dias de manhã já tão lançando passinho lá com o som nas alturas. É a batalha do passinho que anima a favela. E o estado só olha pragente quando é pra abordar”.

Cláudio Borba falou sobre projetos sociais da polícia. Foto: Suzana Souza

“Uma preocupação grande da atual administração é mostrar que a polícia não é só repressão, e sim prevenção e cidadania. Montamos um programa com o trabalho da polícia, chamado Comunidade Segura, ministrando palestras nas escolas estaduais. É um projeto pra tentar desmistificar e fazer as pessoas acreditarem mais na polícia”, disse o delegado Cláudio Borba, citando iniciativa promovida pela Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS).

A advogada Juliane Lima alertou para a necessidade de termos políticas públicas que atendam a população negra e problematiza a ocupação das ruas. “Temos inúmeros racismos: religioso, ambiental, institucional, recreativo. Como a elite se apropria do espaço público, né? Mas ao mesmo tempo ela nega, porque a rua é lugar de prostituta, de ladrão. Mas ao mesmo tempo que a rua não presta, a rua é da elite”, provocou.

A Polícia dança?

O debate contou coma facilitação gráfica da artista gráfica Camila Wanderley. Foto: Suzana Souza

O modus operandi da Polícia Militar foi questionado pela maioria do público presente. “O que tá sendo feito pra alimentar a alma dos policiais, será que eles dançam? Será que eles são treinados pra serem rígidos? Será que não deveríamos fazer os policiais dançarem?”, convida para reflexão Djair Falcão, pesquisador da INCITI/UFPE. Segundo Juliane Lima, o espaço público também reprime a polícia. “Eu acho que os policiais dançam, a questão é onde eles dançam. Eles são tão reprimidos no espaço público, eles terminam não alimentando isso”, concluiu.

Para MC Negrita, a questão é de representatividade. “É uma polícia que pode fazer ação, pode dançar, fazer quadradinho, é uma galera que não vai me representar.  Me dói ver meu povo fazendo ações, chamando a galera do tráfico para o rap, e a polícia faz parar porque tamo falando a verdade, e a verdade dói”. A poeta Bione segue a mesma linha. “Não temos acesso à educação e lazer, quando criamos o nosso lazer somos totalmente reprimidos. Como faz pra acreditar na polícia se ela reprime, oprime e mata a gente?”.

Morador da comunidade do Bode, em Brasília Teimosa, o artista visual Stilo Santos chama atenção para a disparidade entre discurso e prática dos projetos sociais da polícia. “Acontece que de manhã quem vem dar a palestra é o major, um cara desconstruído, que quer trocar uma ideia, mas de noite quem tá na minha porta é o GATI, o Grupo de Apoio Tático Itinerante, a Rocam, o GTO (Grupo Tático Operacional). Os projetos sociais são feitos por pessoas do alto escalão que se dizem agentes dos direitos humanos, enquanto as especializadas estão matando e batendo  na periferia e na juventude negra”.

A conversa também permeou a questão da política das drogas. “A polícia foi treinada por muito tempo pra lutar contra as drogas, sendo que a guerra às drogas está perdida. Tem que levar essa discussão adiante, amanhã mesmo vou ligar pra Antônio de Pádua (Secretário de Defesa Social de Pernambuco), é preciso compreender isso. O menino que fuma maconha na favela é um delinquente, o da classe média é cabeça?”, provocou Murilo Cavalcanti.

A advogada popular Thaisi Bauer chamou atenção para a abordagem racista e seletiva dos policiais e propôs encaminhamentos após o debate. “O meu primeiro encaminhamento seria de fortalecimento do GT racismo dentro da polícia para que houvesse formação desses policiais em relação ao racismo institucional que tem sido perpetrado reiteradamente”. Como segundo encaminhamento, a advogada sugeriu que o Conselho de Segurança Pública fosse ocupado pelas pessoas da sociedade civil e que tivesse o caráter deliberativo e consultivo. Thaisi ainda fez uma terceira proposta. “Sugiro que a corregedoria seja desvinculada da polícia, pois precisamos de autonomia para que essas abordagens e esses crimes sejam investigados por alguém que seja autônomo”, concluiu.

Teve apresentação de passinho no térreo da INCITI/UFPE. Foto: Instagram/Divulgação

Ao final o público presente teve o privilégio de assistir à apresentação do grupo As Cacique do Passinho, que encerrou com boas energias um encontro marcado pela tensão e exposição de muitas feridas, mas que representou um raro momento de aproximação entre população, grupos culturais, pesquisadores e gestores, apontando assim para a necessidade de uma maior promoção de espaços que fomentem diálogos e danças sobre temas de interesse público. 

Encaminhamentos

1) Transparência nos dados dos crimes violentos letais intencionais, com descrição de raça, idade, gênero, nome, lugar da morte;
2) Participação da sociedade civil no Conselho Estadual de Segurança Pública do Estado de Pernambuco, o qual deve ser paritário, consultivo e deliberativo;
3) Maior autonomia para as Corregedorias de Polícia;
4) Realização de audiências descentralizadas na periferias para escuta da população;
5) Participação da sociedade civil nas reuniões do Pacto pela vida.

Repercussão

O debate “Como conviver sem criminalizar” também repercutiu nos veículos de comunicação locais. A Marco Zero Conteúdo aprofundou a discussão com uma matéria que contou com a colaboração do Inciti que aborda os casos de violência policial nas abordagens durante encontros de passinho. A matéria também conta a história do jovem que perdeu a visão de um dos olhos numa dessas ações. O caso foi denunciado durante o debate no INCITI. Confira a matéria completa

Confira áudio do debate na íntegra

Mediadores de leitura levarão “Ribe do Capibaribe” para bibliotecas públicas do Recife

Apresentar a temática do meio ambiente, da fauna e da flora do Recife, através de elementos e narrativas lúdicas. Essa é a ideia da metodologia “Ribe do Capibaribe”, que será aplicada em um projeto piloto, em bibliotecas públicas e comunitárias do Recife, ao longo do primeiro semestre de 2019. A proposta, desenvolvida como parte do projeto Parque Capibaribe, surgiu na perspectiva de mudar a forma de as pessoas pensarem e vivenciarem o Rio Capibaribe.

O primeiro ciclo de formação de arte educadores aconteceu entre os dias 04 e 06 de fevereiro, nos Compaz Ariano Suassuna e Eduardo Campos, com orientação do consultor pedagógico do Ribe, Gabriel Santana. Estiveram presentes profissionais que atuam nas Secretarias municipais de Segurança Urbana, de Meio Ambiente e de Educação, representando, respectivamente, as bibliotecas públicas da Rede pela Paz (dos Compaz, de Casa Amarela e de Afogados), dos Econúcleos e do Programa Manuel Bandeira de Formação de Leitores.

Formação foi com Gabriel Santana, consultor pedagógico. Foto: Maíra Brandão

Os encontros permearam conversas sobre a importância da leitura e da literatura, exercícios de escrita criativa, trocas de conhecimentos e de estratégias de mediação de leitura. Como parte do último dia de atividades, os participantes foram convidados a proporem dinâmicas de estímulo ao hábito de ler e de trabalhar com a publicação infantil “Ribe do Capibaribe”, a partir dos seus conhecimentos e métodos.

O resultado foi muito rico. Surgiram propostas variadas para se trabalhar com crianças e jovens, como contação de histórias, teatro de mamulengo, criação de cordel, rap e personagens a partir de material reciclado, vivências nas margens do rio e/ou nos ambientes naturais próximos às bibliotecas e desenvolvimento de jogo da memória.

Trocas e dinâmicas ao longo dos encontros. Foto: Maíra Brandão

Método – Além das bibliotecas e equipamentos públicos do Recife, ao longo do primeiro semestre o método “Ribe do Capibaribe” também será experimentado junto às oito bibliotecas da Releituras, Rede de Bibliotecas Comunitárias das cidades do Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes,  experimentado em 12 bibliotecas públicas e comunitárias da Região Metropolitana do Recife. A proposta é de que o método possa ser aplicado ao longo do primeiro semestre, de forma experimental, e a partir do retorno dos mediadores de leitura sobre a experiência em cada bairro, pretende-se aperfeiçoar o Ribe e desenvolver a segunda edição da publicação.

Diversão e aprendizado no lançamento do Ribe do Capibaribe

Sonhar, planejar, realizar e celebrar. Foi seguindo esse ciclo da metodologia Dragon Dreaming, que o Ribe do Capibaribe – publicação infantil com histórias em quadrinhos e atividades – foi lançado, no Jardim do Baobá, no dia 02 de fevereiro de 2019. Para comemorar a estreia do livro, desenvolvido como ferramenta de educação ambiental do projeto Parque Capibaribe, foi preparada uma tarde inteira de atividades, no espaço público situado às margens do rio, no bairro da Jaqueira.

O lançamento teve direito a mediação de leitura com Gabriel Santana, consultor pedagógico do Ribe, que apresentou os personagens às crianças, contou histórias e convidou-as a respirar fundo e sentir o lugar onde estavam.

Respira fundo e pula! Foto: Rafa Medeiros

Rolou também espaço pra pintar, escrever e desenhar, jogo da memória, esquete teatral com a Turma Mangue e Tal e ainda bate-papo com o autor do livro, Allan Chaves, momento que deixou todo mundo boquiaberto. Crianças de variadas idades participaram ativamente da conversa, quiseram saber sobre todo o processo de criação. Surgiram perguntas sobre como surgiu o Ribe, como é desenhar uma história em quadrinho, como o autor imaginou cada história, quem ajudou, e ainda deram conselhos e chamaram atenção para os cuidados necessários com o meio ambiente. “Eu vou tirar como exemplo o garoto que estava aqui, que de repente tava falando sobre o que aconteceu em Mariana e Brumadinho (Minas Gerais). E eu fiquei pensando como a criança conseguiu fazer a conexão do cuidado ambiental com um desastre que ele viu no jornal. Se o Ribe fizer isso repetidas vezes, ele terá cumprido a sua missão. Quero mais é que a gente consiga!”, disse Allan.

Depois da conversa, ainda teve fila pro autógrafo. Ao todo, 300 exemplares foram distribuídos para todo mundo que compareceu ao Jardim do Baobá nesse dia.

A tarde foi toda de muita animação, mas na hora da caça ao tesouro virou um rebuliço só. GRITOOOOOO. Não é só eufemismo, as crianças foram à loucura mesmo. Aliás, não sabemos ainda se foi mais intenso para os pequenos ou para os tios que supervisionaram a atividade, que acabaram ficando com a língua de fora de tanto correr de um lado pro outro junto com cada equipe. Mas a diversão foi garantida!

A equipe laranja matou todas as charadas e achou o tesouro. Foto: Rafa Medeiros

Para Circe Monteiro, coordenadora de Pesquisa e Inovação do INCITI/UFPE, a publicação se firma como oportunidade de estimular as crianças a descobrirem e valorizarem a fauna e a flora do Recife, de uma forma divertida. “O Ribe vai ser uma ponte pra gente acumular uma série de vivências das crianças. A gente tá fazendo um projeto (Parque Capibaribe) que tem uma dimensão de 20 anos. Então as crianças que estão hoje com 5, 10 anos, são os adultos que estarão vivendo nesse parque. A dimensão de fazer esse trabalho desde já, pequenininho, de respeito, de sustentabilidade, de uma pegada mais leve na terra, de trazer a discussão de como contribuir e respeitar a fauna e a flora, é muito importante. E também é um livro, mas que está atrelado a um projeto de cidade e um projeto urbano. É um diferencial”, reflete a pesquisadora.

Ao longo do primeiro semestre de 2019, a ferramenta e a metodologia Ribe do Capibaribe viverão um período de experimentação, com distribuição e aplicação junto a escolas e bibliotecas públicas, espaços à beira do Rio Capibaribe.

Ribe do Capibaribe: a origem

Você já conhece o Ribe do Capibaribe? O Ribe é uma publicação infantil, de autoria do ilustrador Allan Chaves, com histórias em quadrinhos e atividades, tendo como personagem principal uma simpática capivara, o Ribe, que junto com seus amigos – que vivem no principal curso d’água do Recife – se aventuram pela cidade e aprendem sobre os cuidados com a natureza. Criado como parte do projeto Parque Capibaribe, o Ribe do Capibaribe vai além de uma mera publicação. Pretende estabelecer-se também como método de educação ambiental, divertido, capaz de sensibilizar crianças, jovens e adultos sobre o Rio Capibaribe, o desenvolvimento da cidade, os bens naturais, a sustentabilidade e a cultura.

Mas como surgiu tudo isso?, você pode nos perguntar. O Ribe apareceu no projeto Parque Capibaribe pela primeira vez em 2014. Na época, a ideia era ter um mascote que interagia com o público nas redes sociais, em tirinhas de quadrinhos, com uma estética de mangá (os quadrinhos japoneses). O que motivou o surgimento desse personagem foi a necessidade de criar meios para aproximar as pessoas do rio, dos produtos, projetos e pesquisas do Parque Capibaribe, a fim de ajudar na transformação da forma de pensar o rio e a cidade.

Aquela ideia de tirinhas de 2014 foi ganhando corpo e transformou-se em histórias em quadrinhos e atividades para brincar com as crianças. “Quando a ideia dele deixar de ser um personagenzinho que aparecia esporadicamente nas redes sociais do Parque Capibaribe pra ser um personagem maior – que apareceria em eventos, mais quadrinhos – e seria um “rosto” pro Parque, mudei pouca coisa. Ele passou a ser mais colorido, e pra manter a ideia de um personagem caricato, divertido, ele ficou laranja, e não o “marrom normal” da capivara”, conta Allan Chaves.

A primeira versão do Ribe tinha traços de mangá.

Aos poucos, os outros personagens da turma foram sendo criados, como conta a coordenadora de Pesquisa e Inovação do INCITI/UFPE*, Circe Monteiro. “A gente fez uma oficina pra criar as personalidades dos animais. A gente criava uma situação e cada um respondia com aquela persona. Saiu que o Sá (caranguejo-uçá) era o inteligente, o cérebro da turma; o Ribe e a Piba, capivaras desbravadoras, alegres, que gostam de estar junto de todo mundo e são muito afetuosas; o Tio Biu, um jacaré que já era mais velho, que tinha um conhecimento histórico das coisas e do rio; a Gringa, a garça era histérica, de fora”, lembra Circe.

Visitas ao rio também fizeram parte do processo criativo de Allan Chaves junto à equipe de comunicação do Parque Capibaribe. “Pra termos mais conteúdo, fizemos algumas incursões pelo rio, por barco, do Recife Antigo até a Várzea. Graças a isso adicionamos mais personagens além das capivaras, jacaré, garça e caranguejos (algumas que só foram incluídas em one shots, outros que estão guardados pra ideias futuras). Como a fauna é muito rica, paramos pra observar tudo, e disso vieram muitas ideias, muitas piadas e muitos roteiros”, conta Allan.

Pergunta recorrente na expedição: “é bicho ou lixo? “. Dessa vez era bicho, um jacaré. Foto: Manuela Salazar

Passado algum tempo, em 2016 a equipe de Comunicação do projeto Parque Capibaribe decidiu que o Ribe merecia chegar em mais pessoas. Começou então todo o processo de planejamento para lançar essa criatura e seus amigos para o mundo. Com o apoio de Flora Noberto, jornalista e facilitadora da metodologia Dragon Dreaming, os objetivos foram desenvolvidos, as etapas criadas e distribuídas entre a equipe.

Dentre as fases pensadas, uma das principais foi redesenhar o Ribe e seus amigos. A ideia era que os bichinhos se parecessem mais com os animais reais, para que as crianças tivessem mais facilidade de associação, nesse trabalho de visibilidade e valorização da fauna local. O cenário onde se passavam as histórias também ganhou novos contornos, passando a mostrar referências naturais e construções históricas do Recife, como comenta o autor: “Nessa mudança, apesar de ter esse pé no traço “realista”, como toda boa obra de ficção, tínhamos nosso pezinho na imaginação, pra que pudéssemos pôr ele limpando o rio, algumas vezes agindo como humano ou sonhando em andar de bicicleta”.

Projeto na mão, ilustrações, brincadeiras e roteiros aprovados começamos a buscar parceiros que topassem aperfeiçoar e entrar nessa empreitada conosco. “Depois veio um aprofundamento com pedagogos nos ensinando como levar a história, as palavras, para as crianças. Como as crianças poderiam melhor captar, e a ideia de transformar isso em uma brincadeira, uma diversão. A melhor coisa pra aprender é diversão”, diz Circe.

Foi aí que em 2018 a Companhia Editora de Pernambuco (CEPE) resolveu embarcar no sonho com a gente. Com o livro em mãos, o Ribe do Capibaribe vai pras ruas, pras mãos de crianças, educadores, para escolas e bibliotecas. Tímido, Allan ainda reflete sobre o impacto de sua obra sobre o Recife: “Eu não sei bem o que sentir, é uma sensação estranha, mas muito boa, nunca pensei sobre isso parar em bibliotecas, escolas, livrarias e ser algo ligado ao ambiental ou educativos. É tudo novo pra mim, eu tenho orgulho de cada página, cada história, cada atividade”.

Olhando assim, parece até que foi um longo processo. Mas esperamos que esse seja só o começo de muitas outras aventuras e formato para o Ribe do Capibaribe.

Se quiser conhecer o Ribe do Capibaribe, o livro já está disponível para download na área de publicações do nosso site. Para conferir: bit.ly/publicacoesparque.

* O INCITI/UFPE é um grupo de pesquisa que, em parceria com a Prefeitura do Recife, desenvolve o projeto Parque Capibaribe.

 

No Recife, hackathon pela mobilidade premia projeto de deslocamento pelos rios

Por Maíra Brandão

Se você mora em uma cidade onde passa um rio, certamente já considerou como seria usá-lo como meio pra se deslocar. E havendo essa possibilidade, já pensou poder usar o celular pra chamar o barco mais próximo pra ir trabalhar ou estudar? Pois essa foi a ideia do projeto vencedor do Open Mobility Hack, que aconteceu entre os dias 1º e 3 de fevereiro, no Recife. A equipe Navegue, que elaborou a proposta, contou com dois pesquisadores do INCITI: Caio Scheidegger e Nathália Machado.

A ideia da Navegue foi de direcionar os esforços para um modal que é sempre comentado e desejado pela população, mas de uma maneira mais simples de viabilizar, por meio de um aplicativo que possibilite a mobilidade através dos rios com pequenas embarcações, com administração de reserva e agendamento de horário para trajetos. “A gente sugeriu no hackathon que serviço chegasse um pouco mais à população, por meio de um aplicativo que informasse às pessoas se o barquinho estaria próximo dos pontos de embarque, tipo um Cittamobi, e assim ter mais uma opção de modal ou outra função que permita à pessoa contratar o serviço de um barquinho para levar de um lugar a outro, como um Uber”, explica Nathália.

O projeto desenvolvido por eles, ao mesmo tempo em que promove a mobilidade fluvial, incentiva a sustentabilidade da população ribeirinha do Capibaribe, como comenta Caio Scheidegger. “Desde o início da implantação do Parque Capibaribe foi possível perceber um aumento na demanda. Conversamos com Davi (barqueiro do rio Capibaribe), que afirmou a nossa impressão, de que várias pessoas estão oferecendo esse serviço”, disse Caio. “Futuramente a intenção é conectar com outros sistemas, como a bike e o busão”, complementou.

Para desenvolver o projeto, a equipe utilizou os dados abertos da Pesquisa de Origem e Destino, que desde 1997 não considera o barco como modo de deslocamento. “No último ano em que o barco entrou na pesquisa foram contados cerca de 1200 deslocamentos pelo rio. É uma realidade totalmente invisibilizada e a gente espera com essa proposta poder entender melhor o rio, estimular que as pessoas olhem mais pra ele e até usem mais ele, respeitando sempre seus limites e em equilíbrio”, complementa Nathália.

Além de Caio e Nathália, a equipe Navegue foi formada por Igor Cabral, Júlio Ramos e Luís Delgado. A Navegue levou R$ 7 mil para desenvolver o projeto, além de ter uma vaga garantida no próximo Mind The Bizz, programa de incentivo ao empreendedorismo inovador do Porto Digital, CESAR e Sebrae. O segundo lugar ficou com a BuStop, uma solução que pretende facilitar a vida de cadeirantes nas paradas de ônibus, além de permitir um maior gerenciamento do tempo por parte do condutor – que receberá a solicitação no painel do veículo e poderá planejar a parada e a preparação do elevador de acesso para os usuários de cadeira de roda.

O Open Mobility Hack foi realizado pelo Porto Digital e pelo Consulado Britânico – por meio do Foreign & Commonwealth Office (FCO) via Department for International Trade (DIT) e Great Britain and Northern Ireland -, e contou com apoio da Prefeitura do Recife.