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Parque Capibaribe propõe soluções alternativas para drenagem e tratamento das águas no Recife

Estudos apontam para a recuperação ambiental dos cursos d´água

Todo mundo já passou por situações de alagamento no Recife, ao menor sinal de chuva. Quando a maré está cheia, o transtorno é ainda pior. Muitas são as condições que provocam enchentes na capital pernambucana. Mas e as respostas para a resolução do problema, onde encontrar? O problema é complexo, mas há soluções possíveis. A questão foi detalhada pela arquiteta e urbanista Anna Karina Alencar, pós-doutoranda em Planejamento Urbano, que apresentou o painel “Parque Capibaribe como sistema de drenagem e tratamento das águas no Recife”, nesta sexta-feira (19), no 9º Encontro Internacional das Águas, realizado na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

Além de um projeto de transformação do espaço urbano, o Parque Capibaribe também traz em seu escopo soluções de recuperação ambiental. Um dos aspectos considerados na elaboração do projeto, desenvolvido através de parceria entre a Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente, e da Universidade Federal de Pernambuco, através do grupo de pesquisa INCITI, foi a formação de uma visão sistêmica das questões de drenagem e tratamento dos riachos urbanos que formam a bacia hidrográfica do Rio Capibaribe.

Em primeiro lugar, é preciso entender a condição do Recife, cidade estuarina, ou seja, que lida em seu ambiente com a transição entre os rios e o mar, onde considerável parte das águas se movem nas duas direções sobre influência tanto das marés, como das águas pluviais. Com o processo de urbanização, muito do que era curso d’água e zona de expansão das águas durante a maré cheia, foi aterrado.

O primeiro mapa do Recife, de 1831, permite observar que o alagamento chegava aos bairros de Santo Antônio, Boa Vista e São José.

Segundo a pesquisa – que integra o Plano Urbanístico e de Resgate Ambiental do Capibaribe – PURA Capibaribe, produto que está sendo elaborado pelo INCITI, como parte do convênio do Parque Capibaribe – as ações que transformaram grandes parte dos riachos em canais de drenagem e sistema de esgoto, além de causar enorme prejuízo ao meio ambiente deu início uma série de problemas, como favorecimento de ligações de esgotos clandestinos e a ocupação irregular das margens tanto pela população de baixa renda como pela de média e alta renda.

Essa combinação, somada ao aterro das águas e ao hábito de despejar lixo nos canais piora o cenário de inundação das águas na cidade. Mas a urbanista diz que o que se deu foi o contrário: “Nós é que invadimos o espaço das águas. As faixas marginais dos rios e riachos deveriam ser preservadas como áreas naturais, por serem APP – Área de Preservação Permanente”, e complementa, “São áreas de espraiamento dos cursos d’água, onde é normal, em períodos chuvosos, receber um maior volume de água”.

De acordo com o levantamento apresentado por Anna, a maior parte dos 95 riachos, da cidade do Recife foram transformados em canais, ao longo do processo de crescimento da cidade. “Existe uma grande rede hídrica conectada ao Capibaribe, que foi se transformando em canais de drenagem e esgoto no processo de urbanização da cidade. Dentro de uma visão higienista, a canalização funcionava como sistema de drenagem, visando o rápido escoamento da jusante, o fluxo da maré baixando. Atualmente, há vários estudos que comprovam que a canalização e retificação dos cursos d’água não resolve as inundações e muitas vezes pode até agravar o problema”, explicou a pesquisadora.

Por meio do estudo, desenvolvido em parceria com o professor, engenheiro e especialista em hidrologia, Jaime Cabral, foram definidas três situações de intervenção possíveis para recuperação ambiental dos riachos que formam a bacia do rio Capibaribe na cidade do Recife. A primeira seriam intervenções urbanísticas e de tratamento paisagístico para aumentar a permeabilidade nos riachos já canalizados, como é o caso do Riacho do Parnamirim. A segunda seria a preservação de trechos não-canalizados, como riachos naturalizados, que poderia ser aplicada nos Riachos Camaragibe e Don-don. A outra opção seria praticada em áreas públicas livres, próximas aos cursos d’água, com a construção de wetlands, sistemas de tratamento das águas ao longo de riachos como o do Buriti, que desagua no açude de Apipucos. A concepção deste tipo de tecnologia pode ser vista como a aplicação de alguns princípios de renaturalização ou recuperação dos riachos urbanos, onde se realiza o manejo de plantas aquáticas específicas, associado com processos de filtragem.

Para que os tratamentos sejam bem sucedidos, Anna Alencar defendeu ainda o envolvimento das pessoas em ações de sensibilização e educação ambiental. “Pesquiso a questão dos desenhos urbanos sensíveis às águas e sei que, se a população não estiver envolvida, não vai dar certo”, afirmou.

Revitalização – Durante o Encontro Internacional de Águas Urbanas uma outra mesa chamou atenção para as soluções apresentadas pelo projeto Parque Capibaribe. Foi a conferência “Riachos urbanos do Recife: massacrados no século XX. Mas será que podemos revitalizá-los no século XXI?”, apresentada pelo professor da pós graduação em Engenharia Civil na UFPE e especialista em drenagem urbana, Jaime Cabral.

Segundo o engenheiro, a pesquisa recupera importantes funções dos riachos, que foram deixadas de lado com o passar do tempo. “Quando você estuda o rio, percebe que ele é multidisciplinar e tem muitos outros aspectos a serem pensados: a qualidade da água, a redução da temperatura, a biota do rio, a função social… então vimos que era necessário extrapolar os conceitos de hidráulica e hidrologia e ver diversos outros aspectos importantes para manter um rio de boa qualidade”, discorreu o professor.

Os olhares se voltaram, então, para os afluentes, atualizando as noções de uso dos riachos. Foi a partir daí que se estabeleceu o conceito de infiltração, adotado pelo projeto Parque Capibaribe. A ideia é que, tanto ruas como riachos possibilitem a ampliação e conexão das áreas verdes, a partir da margem do rio Capibaribe, para o resto da cidade, como corredores ecológicos. “Além de melhorias ambientais, com essa valorização das infiltrações o rio deixa de ser uma barreira e torna-se uma possibilidade de conexão entre os bairros”, explica Anna Alencar.

Jaime ressaltou ainda que, por meio do Jardim do Baobá – primeiro trecho implantado do Parque Capibaribe – o projeto já está contribuindo para reduzir a visão negativa da população com relação às águas fluviais da cidade. “O Jardim está reaproximando a população das águas. As pessoas conhecem o rio e já têm um olhar diferenciado para ele, a partir desse espaço. A iniciativa do Parque de promover a revalorização do rio já está dando certo”, afirmou Jaime.

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